Introdução
Jensen Huang, CEO da Nvidia, acaba de concluir uma visita estratégica ao Japão que pode redefinir o futuro da manufatura global. Durante dois dias intensos em Tóquio, o executivo fechou acordos que abrangem todo o ecossistema tecnológico japonês, desde a construção de uma infraestrutura nacional de IA até parcerias com os maiores fabricantes de robôs do país. A mensagem de Huang foi clara: a próxima fronteira da inteligência artificial está no chão de fábrica, e o Japão será o laboratório global dessa transformação.
Para o mercado brasileiro, esses movimentos sinalizam mudanças profundas na cadeia de suprimentos global e no acesso a tecnologias de IA. Com a Nvidia expandindo sua presença na Ásia e o Japão investindo trilhões de ienes em infraestrutura de IA física, o custo e a disponibilidade de recursos computacionais para empresas brasileiras podem ser diretamente impactados nos próximos anos.
A aposta japonesa em IA soberana: o projeto Noetra
O governo japonês está liderando uma iniciativa ambiciosa para não depender de IA americana ou chinesa em suas operações industriais. O projeto Noetra reúne 44 empresas domésticas, com gigantes como SoftBank, Sony, NEC e Honda no núcleo da operação. Tóquio está comprometendo até 1 trilhão de ienes (aproximadamente R$ 31 bilhões) ao longo de cinco anos para desenvolver modelos de IA específicos para robôs, veículos e linhas de produção.
A infraestrutura será impressionante: a Nvidia está construindo uma ‘Vera Rubin AI factory’, um data center massivo que deve entrar em operação em 2028, equipado com 13.750 CPUs Vera e 27.500 GPUs Rubin, entregando 140 megawatts de poder computacional. Para colocar em perspectiva, isso é energia suficiente para abastecer uma cidade de médio porte.
O plano da Noetra se desenvolve em três fases estratégicas: primeiro, um modelo de raciocínio focado em capacidades de língua japonesa começando no ano fiscal de 2026; depois, uma versão omnimodal capaz de processar texto, imagens, vídeo e áudio até 2028; e finalmente, o que chamam de ‘Real-world Native AI’ – inteligência artificial construída especificamente para operar robôs até 2030.
A coalizão robótica: gigantes industriais abraçam o Cosmos
A Nvidia não está apenas vendendo chips – está criando um ecossistema completo. Empresas como Fanuc, Yaskawa, Kawasaki Heavy, Fujitsu, Hitachi, NEC, Sony, SoftBank, Kubota e o grupo de robótica AIRoA anunciaram planos de construir sobre os modelos Cosmos da Nvidia, uma iniciativa de modelo aberto que a empresa iniciou em maio com laboratórios de IA globais.
O grande diferencial apresentado em Tóquio foi o Cosmos 3 Edge, uma versão do modelo que roda nos chips Jetson Thor diretamente dentro das máquinas. Isso significa que robôs e equipamentos industriais poderão processar IA localmente, sem depender de conexão constante com a nuvem – crucial para operações de manufatura onde latência e confiabilidade são fundamentais.
Algumas empresas já estão testando sistemas de controle compartilhado, enquanto outras, como Honda R&D e Omron, estão construindo ferramentas sobre essa plataforma. Como Huang declarou: ‘O Japão inventou a manufatura moderna. Agora, tem a oportunidade de reinventá-la para a era das indústrias inteligentes.’
Toyota e o futuro dos veículos autônomos
A Toyota, maior montadora do Japão, está apostando todas as fichas na plataforma da Nvidia. A empresa já havia comprometido sua próxima geração de veículos com a plataforma Drive da Nvidia no CES de janeiro de 2025, mas os novos acordos vão muito além. A parceria se estende agora para a manufatura, onde simulações são usadas para projetar linhas de produção, para o software que opera os veículos, e para sistemas que interpretam o tráfego nas estradas.
É interessante notar que a abordagem da Toyota é mais conservadora que a de empresas como Waymo e Tesla. Os carros da montadora japonesa operarão com sistemas avançados de assistência ao motorista, que direcionam e freiam mas ainda requerem um humano ao volante. Essa estratégia pode ser mais adequada para mercados como o brasileiro, onde a infraestrutura viária e a regulamentação ainda não estão preparadas para veículos totalmente autônomos.
O que isso significa para o mercado global
A visita de Huang colocou a IA física no centro da estratégia industrial japonesa, e Tóquio está investindo pesado para sustentar essa visão. Enfrentando uma força de trabalho em declínio devido ao envelhecimento populacional, o Japão planeja ter 10 milhões de robôs equipados com IA em 18 setores até 2040, apoiados por US$ 65 bilhões (cerca de R$ 325 bilhões) em investimentos públicos e privados em IA física.
O jogo de longo prazo é ainda mais ambicioso. A Estratégia de Robótica com IA do Japão, lançada em março, visa capturar mais de 30% do mercado global de robótica com IA até 2040 – um mercado que Tóquio avalia em aproximadamente 20 trilhões de ienes (US$ 133 bilhões ou R$ 665 bilhões). O Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) está financiando um modelo de fundação doméstico para operar essas máquinas, e a fábrica da Noetra alimentada pela Nvidia é onde modelos dessa escala, com trilhões de parâmetros, serão treinados.
Por trás do caso industrial existe uma questão de soberania tecnológica. Enquanto Estados Unidos e China avançam rapidamente em IA de larga escala, Tóquio quer seus próprios dados, sua própria capacidade computacional e menos dependência de infraestrutura que não controla. A administração do primeiro-ministro Sanae Takaichi fez da IA e dos semicondutores a peça central de um plano de crescimento que busca 370 trilhões de ienes (US$ 2,3 trilhões) em investimentos públicos e privados até 2040.
Implicações para o Brasil e América Latina
Para empresas brasileiras, especialmente no setor industrial, esses desenvolvimentos trazem tanto oportunidades quanto desafios. Por um lado, a expansão da infraestrutura de IA na Ásia pode eventualmente reduzir custos de acesso a tecnologias avançadas. Por outro, a concentração de investimentos em mercados desenvolvidos pode ampliar o gap tecnológico.
Empresas brasileiras de manufatura precisarão avaliar como se posicionar neste novo cenário. A adoção de robótica avançada e IA física não é mais uma questão de ‘se’, mas de ‘quando’ e ‘como’. Parcerias com fornecedores que já estão integrando essas tecnologias podem ser um caminho mais rápido que o desenvolvimento interno.
Além disso, a estratégia japonesa de soberania tecnológica pode inspirar iniciativas similares no Brasil. Com nossa base industrial significativa e crescente ecossistema de startups de IA, existe espaço para desenvolver soluções adaptadas às necessidades locais, especialmente em setores como agronegócio e mineração.
O método Huang: conquistando ecossistemas inteiros
É fascinante observar a estratégia de Jensen Huang em ação. Em dois dias, ele se reuniu com praticamente todos os nomes importantes da tecnologia japonesa – os CEOs da Toyota, Fanuc, Yaskawa, Fujitsu e Kawasaki durante o almoço, e dezenas de chefes da cadeia de suprimentos em um izakaya (bar japonês tradicional) em Kanda.
É o mesmo playbook que ele executou semanas antes – um keynote em Taiwan, frango frito e um acordo de 50.000 GPUs em Seul no outono passado. Desta vez, foi a vez de Tóquio, com os robôs, a cadeia de suprimentos e os chips que sustentam tudo isso. Huang não está apenas vendendo hardware; está criando dependências estratégicas e moldando o futuro de indústrias inteiras.
Conclusão
A visita de Jensen Huang ao Japão marca um ponto de inflexão na evolução da IA. Enquanto o mundo tem focado em modelos de linguagem e IA generativa, a Nvidia está apostando que o próximo trilhão de dólares virá da IA física – robôs, fábricas inteligentes e sistemas autônomos que operam no mundo real.
Para o Brasil, isso representa tanto um alerta quanto uma oportunidade. As mudanças na manufatura global chegarão aqui, e empresas que não se prepararem correm o risco de perder competitividade. Por outro lado, nossa experiência em setores como agronegócio e recursos naturais pode nos posicionar como líderes em aplicações específicas de IA física.
O mais irônico de toda essa história? A busca japonesa por independência tecnológica, pelo menos por enquanto, ainda depende fundamentalmente de chips americanos. Mas como a história da tecnologia nos ensina, as dependências de hoje podem ser as oportunidades de amanhã. O importante é estar preparado para quando a onda chegar.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em TechCrunch, disponível em https://techcrunch.com/2026/07/19/what-to-watch-for-after-jensen-huangs-japan-visit/.



