Introdução
O mercado de inteligência artificial continua aquecido e a mais recente demonstração disso vem da Thinking Machines, laboratório de IA fundado pela ex-CTO da OpenAI, Mira Murati. A empresa está em negociações avançadas para levantar US$ 1 bilhão em uma rodada que pode elevar seu valuation para impressionantes US$ 40 bilhões, com a Accel posicionada para liderar o investimento. Este movimento representa não apenas mais um mega-round no setor de IA, mas também sinaliza a consolidação de players dominantes em um mercado cada vez mais competitivo.
A trajetória meteórica da Thinking Machines
Fundada no início de 2025 por Mira Murati após sua saída da OpenAI, onde ocupava o cargo de Chief Technology Officer, a Thinking Machines rapidamente se estabeleceu como uma das startups mais promissoras do setor de IA. A empresa atraiu talentos de peso do ecossistema, incluindo vários pesquisadores seniores que seguiram Murati em sua nova empreitada.
O que torna esta rodada particularmente notável é o contexto: com uma receita anual recorrente (ARR) superior a US$ 100 milhões, a empresa está sendo avaliada em aproximadamente 400 vezes sua receita atual. Este múltiplo, extraordinariamente alto mesmo para os padrões do Vale do Silício, reflete tanto a confiança dos investidores no potencial de crescimento da empresa quanto o apetite insaciável do mercado por apostas em IA de fronteira.
Vale notar que esta valoração de US$ 40 bilhões representa uma redução em relação aos US$ 50 bilhões que a empresa teria buscado no final do ano passado, sugerindo um ajuste às realidades do mercado ou uma estratégia mais conservadora de captação.
O modelo de negócios e a tecnologia por trás do sucesso
A Thinking Machines desenvolveu um modelo de negócios diferenciado no competitivo mercado de IA. Em julho deste ano, a empresa lançou o Inkling, um modelo de pesos abertos que gera receita através de uma abordagem inovadora: cobra taxas baseadas no uso computacional para adaptar modelos a dados proprietários através de sua plataforma Tinker.
Esta estratégia se alinha com uma tendência crescente no setor, onde empresas estão buscando maneiras de monetizar não apenas o acesso aos modelos, mas também a infraestrutura e ferramentas necessárias para customizá-los. É uma abordagem que lembra o modelo de negócios da AWS ou Google Cloud, mas aplicada especificamente ao contexto de IA generativa.
A plataforma Tinker permite que empresas adaptem os modelos da Thinking Machines aos seus dados específicos, mantendo controle sobre informações sensíveis enquanto aproveitam o poder dos modelos de linguagem de última geração. Este posicionamento é particularmente atraente para empresas que precisam de soluções de IA customizadas mas têm preocupações com privacidade e propriedade intelectual.
Os desafios internos e a rotatividade de talentos
Apesar do sucesso financeiro e da valoração impressionante, a Thinking Machines tem enfrentado desafios significativos em termos de retenção de talentos. A empresa experimentou várias saídas de alto perfil, incluindo co-fundadores como Lilian Weng e Luke Metz, que retornaram à OpenAI. Esta rotatividade levanta questões sobre a cultura interna e a capacidade da empresa de manter sua equipe de pesquisa de elite.
O fenômeno não é incomum no setor de IA, onde a competição por talentos é feroz e empresas estabelecidas como OpenAI, Google e Anthropic frequentemente atraem pesquisadores de volta com ofertas generosas e recursos computacionais praticamente ilimitados. Para startups como a Thinking Machines, manter talentos de primeira linha enquanto competem com gigantes tecnológicos representa um desafio constante.
O contexto do investimento e o papel da Accel
A Accel, uma das mais respeitadas firmas de venture capital do Vale do Silício, está posicionada para liderar esta rodada bilionária. A firma tem um histórico impressionante de investimentos em tecnologia, incluindo apostas iniciais em Facebook, Spotify e Slack. Sua decisão de liderar uma rodada desta magnitude demonstra confiança não apenas na Thinking Machines, mas no setor de IA como um todo.
É importante contextualizar que a rodada anterior da empresa – um seed funding de US$ 2 bilhões que figura entre os maiores da história – foi liderada pela Andreessen Horowitz e incluiu participações da Nvidia, GV (braço de venture capital da Alphabet), Lightspeed e Conviction Partners. A valoração saltou de US$ 12 bilhões para os atuais US$ 40 bilhões propostos, representando um aumento de mais de 3x em menos de dois anos.
Implicações para o mercado brasileiro e global
Para empreendedores e investidores brasileiros, esta rodada oferece várias lições importantes. Primeiro, demonstra que o mercado de IA continua extremamente aquecido, com investidores dispostos a pagar múltiplos altíssimos por empresas com tecnologia de ponta e equipes excepcionais. Segundo, reforça a importância do pedigree dos fundadores – a experiência de Murati na OpenAI foi claramente um fator decisivo para atrair tanto capital.
No contexto brasileiro, onde o ecossistema de IA ainda está em desenvolvimento, casos como o da Thinking Machines servem como referência de escala e ambição. Empresas locais como a Semantix, que trabalha com soluções de IA para o mercado corporativo, ou startups emergentes no setor podem se inspirar no modelo de negócios da Thinking Machines, adaptando-o às realidades e necessidades do mercado latino-americano.
A estratégia de cobrar pelo uso computacional em vez de licenças fixas também pode ser particularmente relevante para o mercado brasileiro, onde empresas frequentemente preferem modelos de pagamento mais flexíveis e baseados em consumo.
O que isso significa para o futuro da IA
Esta mega-rodada sinaliza várias tendências importantes no setor de IA. Primeiro, confirma que estamos vendo uma consolidação onde alguns poucos players dominantes emergem com recursos massivos para competir no desenvolvimento de modelos de fronteira. Segundo, demonstra que investidores continuam apostando que a IA generativa ainda está em seus estágios iniciais, com o verdadeiro valor ainda por ser capturado.
A valoração de US$ 40 bilhões coloca a Thinking Machines em uma liga exclusiva, ao lado de empresas como OpenAI (avaliada em mais de US$ 150 bilhões) e Anthropic (avaliada em cerca de US$ 40 bilhões). Esta concentração de capital em poucas empresas levanta questões sobre competição e inovação no longo prazo.
Para o ecossistema mais amplo, incluindo startups que dependem destes modelos fundamentais, a tendência sugere que o acesso a tecnologia de ponta continuará concentrado em poucos players bem financiados, criando tanto oportunidades quanto desafios para empresas que buscam construir em cima destas plataformas.
Conclusão
A negociação da Thinking Machines por uma rodada de US$ 1 bilhão a uma valoração de US$ 40 bilhões representa mais um capítulo na corrida global por dominância em IA. Com um ARR superior a US$ 100 milhões e um modelo de negócios inovador baseado em cobrança por uso computacional, a empresa demonstra que é possível criar valor significativo mesmo em um mercado dominado por gigantes tecnológicos.
Para o mercado brasileiro e global, este movimento reforça a importância de acompanhar de perto as tendências em IA e considerar como modelos de negócio inovadores podem ser adaptados a diferentes contextos. Enquanto a concentração de capital em poucas empresas pode parecer desafiadora, também cria oportunidades para startups que saibam se posicionar estrategicamente na cadeia de valor da IA.
À medida que a Thinking Machines e seus competidores continuam a empurrar as fronteiras do possível em IA, o verdadeiro teste será sua capacidade de transformar tecnologia avançada em produtos que gerem valor real para usuários e empresas. Com esta nova injeção de capital, a empresa terá recursos abundantes para essa missão – resta saber se conseguirá manter os talentos necessários e executar sua visão ambiciosa.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria “Accel reportedly in talks to lead $1B round for Thinking Machines at $40B valuation” publicada em TechCrunch, disponível em https://techcrunch.com/2026/09/03/accel-reportedly-in-talks-to-lead-1b-round-for-thinking-machines-at-40b-valuation/.



