Introdução
Uma startup americana está usando uma abordagem inédita para descobrir novos compostos cosméticos: treinar modelos de inteligência artificial em tecido de pele humana mantido vivo em laboratório por até um mês. A Outer Biosciences, co-fundada por Michael Polansky – conhecido publicamente como parceiro de Lady Gaga – desenvolveu um sistema proprietário que preserva amostras de pele descartadas de cirurgias plásticas, permitindo observar processos biológicos lentos como remodelação de colágeno e reparo de barreira cutânea que normalmente levam semanas para se manifestar.
A empresa, que operou em sigilo por anos, está agora revelando como combina tecido vivo, experimentos controlados e machine learning para acelerar drasticamente a descoberta de ingredientes ativos para skincare. Enquanto o universo atual de ingredientes cosméticos comprovados gira em torno de apenas 200 substâncias, a Outer Biosciences já está gerando um novo candidato a cada seis semanas – uma velocidade sem precedentes no setor.
A tecnologia por trás do sistema
O diferencial da Outer Biosciences está em manter tecido humano real funcionando fora do corpo por períodos muito superiores ao padrão da indústria. Normalmente, laboratórios conseguem manter amostras de pele viáveis por apenas alguns dias – tempo suficiente para testes básicos de toxicidade, mas insuficiente para observar processos biológicos complexos.
A startup desenvolveu um sistema de suporte proprietário que alimenta o tecido com nutrientes e remove resíduos metabólicos, estendendo sua vida útil para aproximadamente 30 dias. Durante esse período, o tecido mantém sua arquitetura original e preserva os programas moleculares epidérmicos, estromais e imuno-associados do primeiro dia. Em termos práticos, isso significa que pesquisadores podem induzir danos por radiação UVB e acompanhar todo o processo de estresse, inflamação e recuperação ao longo de semanas – exatamente como aconteceria em pele viva no corpo humano.
As amostras são obtidas através de biobancos e intermediários certificados, principalmente o National Disease Research Interchange e a Cooperative Human Tissue Network, ambos com financiamento federal americano. Todo o tecido vem de cirurgias plásticas e seria descartado de qualquer forma, chegando ao laboratório da empresa em questão de horas após o procedimento, ainda vivo e funcional.
Como a IA acelera as descobertas
O sistema da Outer Biosciences funciona como um ciclo de retroalimentação contínua. Primeiro, um modelo de IA analisa dados existentes e prevê quais compostos químicos não testados têm maior probabilidade de produzir efeitos benéficos em funções específicas da pele. Esses candidatos são então testados no sistema de tecido vivo, com medições moleculares repetidas ao longo do experimento.
Os resultados – sejam positivos ou negativos – alimentam o modelo novamente, refinando suas previsões para a próxima rodada. Essa abordagem substituiu o método inicial de ‘força bruta’ da empresa, que dependia de mineração de literatura científica e parcerias para testar compostos naturais de ambientes extremos. Enquanto a fase inicial produziu apenas alguns candidatos promissores em 18 meses, o sistema com IA integrada agora gera um novo lead aproximadamente a cada seis semanas.
Atualmente, a empresa tem seis compostos ativos em seu pipeline de desenvolvimento, com dezenas de outros ‘hits’ catalogados para investigação futura. Quatro dos seis leads principais já parecem prontos para comercialização, segundo Polansky.
O mercado limitado de ingredientes cosméticos
Um aspecto surpreendente revelado pela pesquisa é o tamanho extremamente limitado do universo atual de ingredientes ativos para skincare. Embora a FDA americana mantenha regras para 13 categorias de produtos dermatológicos de venda livre (como protetores solares e antifúngicos), apenas cerca de 120 a 130 ingredientes ativos são aprovados em todas essas categorias.
Quando se incluem ingredientes cosméticos respaldados por pesquisa científica real, esse número sobe para aproximadamente 200 substâncias. Para uma indústria global de cosméticos avaliada em centenas de bilhões de dólares, essa escassez de opções comprovadas representa tanto uma limitação quanto uma oportunidade significativa.
Como a Outer Biosciences foca em ingredientes cosméticos e não medicamentos, não há necessidade de aprovação regulatória complexa da FDA. O processo envolve apenas dois passos principais: obter um nome padronizado para o ingrediente na indústria e realizar testes de segurança sob diretrizes da OCDE, cujos estudos são aceitos em mais de 40 países participantes.
Modelo de negócios e parcerias estratégicas
Em vez de criar sua própria marca de consumo, a Outer Biosciences planeja licenciar ou vender seus ingredientes descobertos para empresas estabelecidas de beleza ou farmacêuticas. Essas parceiras então formularão os compostos em produtos finais (séruns, cremes) e os comercializarão sob suas próprias marcas.
A empresa já está gerando receita através de parcerias de pesquisa colaborativa, incluindo um parceiro farmacêutico estudando por que certos medicamentos contra câncer causam erupções cutâneas graves, e marcas de beleza testando se os dados da Outer Biosciences se alinham com suas necessidades de desenvolvimento de produtos e marketing.
Curiosamente, existe uma conexão com a Haus Labs, a marca de cosméticos de Lady Gaga. O cientista-chefe da Outer Biosciences, Kyung-Jin Jang, faz parte do conselho consultivo científico da Haus Labs, e as duas empresas já realizaram alguns projetos conjuntos, embora operem de forma independente.
Implicações para o mercado brasileiro
Para o mercado brasileiro de cosméticos – um dos maiores do mundo – as inovações da Outer Biosciences podem ter impactos significativos. Empresas nacionais como Natura e O Boticário, que investem pesadamente em pesquisa de ingredientes naturais da biodiversidade brasileira, poderiam se beneficiar de metodologias similares para acelerar a validação científica de compostos.
A tecnologia também pode democratizar o acesso a ingredientes inovadores. Ao invés de depender apenas de gigantes globais como L’Oréal ou Estée Lauder para desenvolvimento de novos ativos, marcas menores poderiam licenciar compostos descobertos por empresas como a Outer Biosciences, nivelando parcialmente o campo de jogo.
Além disso, a abordagem levanta questões éticas e regulatórias que precisarão ser endereçadas localmente. Como a ANVISA e outros órgãos reguladores brasileiros lidarão com ingredientes desenvolvidos usando IA e tecido humano vivo? Quais protocolos de consentimento e privacidade serão necessários se metodologias similares forem adotadas no Brasil?
Competição e futuro do setor
A Outer Biosciences não está sozinha nessa corrida. A Vivodyne, baseada na Filadélfia e focada em tecido de órgãos humanos cultivado em laboratório, anunciou recentemente ter levantado quase US$ 80 milhões em financiamento. Outras empresas perseguem variações de sistemas organ-on-a-chip e plataformas microfisiológicas para testes pré-clínicos.
No entanto, o uso de tecido real ao invés de sintético pela Outer Biosciences é distintivo. Como Polansky observa, não existe uma ‘internet biológica’ para treinar modelos de IA – cada empresa precisa gerar seus próprios dados biológicos. Isso torna a posição da Outer Biosciences potencialmente mais defensável, embora mais lenta e cara de construir comparada a startups de IA tradicionais.
Interessantemente, todo o trabalho de IA da empresa atualmente roda em servidores locais, não na nuvem, por questões de segurança de dados. As demandas computacionais são modestas comparadas ao treinamento de grandes modelos de linguagem, tornando a operação mais viável financeiramente.
Conclusão
A Outer Biosciences representa uma nova fronteira na interseção entre biotecnologia, inteligência artificial e indústria cosmética. Ao manter pele humana viva por semanas e usar IA para prever e validar novos compostos, a empresa está acelerando dramaticamente um processo que historicamente levava anos ou décadas.
Com apenas cerca de 200 ingredientes cosméticos cientificamente validados disponíveis globalmente, o potencial para descobertas é imenso. Se a abordagem da Outer Biosciences provar ser escalável e replicável, podemos estar no início de uma era dourada de inovação em skincare, com implicações profundas para consumidores, empresas e reguladores em todo o mundo, incluindo o Brasil.
A decisão da empresa de finalmente tornar público seu trabalho após anos de operação sigilosa sinaliza confiança em sua tecnologia e resultados. Para uma indústria frequentemente criticada por marketing exagerado e falta de inovação real, a combinação de tecido humano vivo e inteligência artificial pode representar exatamente o tipo de avanço científico necessário para levar o cuidado com a pele ao próximo nível.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria “Michael Polansky is training an AI model on skin that’s still alive” publicada em TechCrunch, disponível em https://techcrunch.com/2026/08/21/michael-polansky-is-training-an-ai-model-on-skin-thats-still-alive/.



