Introdução
O setor de alimentação está prestes a experimentar uma mudança significativa na forma como os pedidos online são processados. A Square, empresa de pagamentos do grupo Block, acaba de lançar uma integração revolucionária que permite que restaurantes aceitem pedidos feitos diretamente através do ChatGPT e Claude, os populares assistentes de IA. O mais impressionante: sem cobrar as tradicionais taxas de marketplace que historicamente sufocam o setor, oferecendo apenas suas taxas padrão de processamento de pagamento.
Esta novidade representa um marco importante na evolução do comércio digital, especialmente para pequenos e médios estabelecimentos que lutam contra as margens apertadas impostas pelos grandes agregadores de delivery. Em um mercado onde plataformas como iFood, Rappi e Uber Eats dominam com taxas que podem chegar a 30% do valor do pedido, a solução da Square surge como uma alternativa disruptiva e economicamente viável.
Como funciona a nova integração
A tecnologia desenvolvida pela Square opera de forma surpreendentemente simples e eficiente. Restaurantes que já utilizam o sistema Square Online Ordering nos Estados Unidos são automaticamente incluídos no programa, sem necessidade de configuração adicional ou desenvolvimento de APIs. O sistema extrai informações diretamente do catálogo ao vivo da Square, mapeando dinamicamente itens, preços, modificadores complexos e disponibilidade de estoque em tempo real.
Quando um usuário interage com o ChatGPT ou Claude e solicita, por exemplo, ‘encontre uma cafeteria especializada próxima com um ótimo café coado e peça um pacote do blend da casa’, a IA processa a solicitação acessando os dados fornecidos pela Square. O cliente pode navegar pelos resultados, fazer suas seleções e finalizar a compra usando o Order by Cash App, tudo sem sair da interface do chat.
A transação é então roteada instantaneamente para o fluxo operacional existente do estabelecimento, aparecendo no sistema de ponto de venda (POS) da Square e no sistema de exibição da cozinha exatamente como um pedido feito na loja ou diretamente pelo site. Para ajudar os operadores a rastrear o retorno desse novo canal, a origem do pedido é claramente identificada como uma integração de IA nos relatórios backend da Square.
A matemática por trás da revolução
Para compreender a magnitude desta inovação, é essencial analisar os números que atormentam os proprietários de restaurantes. As principais plataformas de delivery e pedidos online transformaram fundamentalmente a economia do setor de alimentação, e não necessariamente para melhor.
Atualmente, gigantes como DoorDash cobram comissões de 15% em seu nível básico de entrega, escalando para 25% no plano ‘Plus’ e chegando a 30% para visibilidade premium. Mesmo pedidos para retirada carregam uma taxa de marketplace de 6%. O Uber Eats segue modelo similar, com taxas de marketplace de entrega variando de 20% no nível ‘Lite’ até 30% para posicionamento premium, enquanto pedidos de retirada podem custar até 10% se a validação de preços na loja não for rigorosamente mantida.
Além dessas comissões de marketplace, as plataformas ainda adicionam suas próprias taxas de processamento de pagamento, tipicamente entre 2,5% e 3,05% mais um valor fixo por pedido. Para um restaurante independente que pode ter uma margem líquida de apenas 3% a 9% em um bom dia, entregar 25% ou 30% de comissão em um pedido de R$ 200 significa essencialmente preparar comida com prejuízo.
A integração da Square ataca diretamente esse ponto de dor. Em vez de entregar 30% para um agregador de delivery, um restaurante descoberto através de um agente de IA paga apenas a taxa padrão de transação online da Square (que normalmente fica em torno de 2,9% + R$ 1,50 por transação em um plano padrão, sem comissão mensal de marketplace anexada).
Impacto no modelo de negócios tradicional
Diferentemente dos agregadores de delivery, o modelo de taxas da Square não subsidia nativamente uma rede de entregadores. Em vez disso, se um pedido gerado por IA requer entrega, a Square utiliza uma rede de despacho white-label que cobra uma taxa fixa de entrega – geralmente entre R$ 35 e R$ 50 dependendo da distância – em vez de taxar uma porcentagem do valor total da cesta. Os restaurantes podem escolher absorver esse custo fixo de entrega ou repassá-lo diretamente ao cliente, protegendo completamente suas margens de alimentos.
O resultado é um canal de descoberta alimentado por IA que funciona como pedidos diretos de primeira parte. Durante sua fase piloto, a Square colaborou com a Partners Coffee, uma marca de café especializado baseada no Brooklyn, para refinar como a descoberta impulsionada por IA se traduz no mundo real. Para operadores como a Partners Coffee, o objetivo não é necessariamente se tornar uma vitrine hiperdigitalizada, mas sim usar a eficiência digital para proteger a experiência física do café.
O ecossistema de comércio impulsionado por IA
A integração com ChatGPT e Claude é apenas o primeiro passo na estratégia mais ampla de comércio agêntico da Square. As apostas são altas: dados da indústria citados pela empresa indicam que mais de 42% dos consumidores agora usam ferramentas de IA para auxiliar em tarefas de compras como descoberta e comparação de produtos. Até 2030, analistas projetam que compradores agênticos podem impulsionar quase US$ 385 bilhões em gastos de e-commerce nos Estados Unidos.
A maioria das pequenas e médias empresas simplesmente não tem as equipes de desenvolvedores ou orçamentos necessários para construir integrações personalizadas para cada novo chatbot, assistente de voz ou dispositivo de hardware com IA que chega ao mercado. A Square quer servir como esse tecido conectivo universal.
Para esse fim, a empresa anunciou que está trabalhando ativamente com a Amazon para trazer vendedores para experiências de comércio por voz Alexa+. Além disso, a Square está participando de importantes grupos regulatórios e de padrões – incluindo o Grupo de Trabalho de Comércio Agêntico da AAIF e o Grupo de Trabalho de Pagamentos Web do W3C – para moldar como agentes de IA e plataformas de comércio interagem em escala.
O que isso significa para o mercado brasileiro
Embora a integração esteja atualmente disponível apenas para vendedores de alimentos e bebidas baseados nos Estados Unidos, as implicações para o mercado brasileiro são profundas. O Brasil, com seu vibrante ecossistema de delivery dominado por players como iFood, Rappi e Uber Eats, enfrenta desafios similares com altas taxas de comissão que pressionam as margens dos restaurantes.
A chegada de uma solução como esta ao mercado brasileiro poderia catalisar uma mudança significativa na dinâmica de poder entre restaurantes e plataformas de delivery. Restaurantes locais poderiam finalmente ter uma alternativa viável para alcançar clientes digitalmente sem sacrificar uma parcela substancial de suas receitas.
Além disso, com a crescente adoção de assistentes de IA no Brasil e a familiaridade crescente dos consumidores com ferramentas como ChatGPT, existe um terreno fértil para este tipo de inovação. Empresas brasileiras de tecnologia financeira e processamento de pagamentos certamente estão observando atentamente este desenvolvimento, potencialmente preparando suas próprias versões adaptadas ao mercado local.
Desafios e oportunidades futuras
A parceria contínua da Square com o Google para co-desenvolver o Protocolo Universal de Comércio (UCP) para pedidos locais de alimentos é particularmente notável. Este padrão aberto é projetado para permitir que agentes e sistemas se comuniquem perfeitamente em toda a jornada de comércio. Do lado do Google, o UCP permite descoberta e checkout através de AI Overviews na Busca e no aplicativo Gemini.
À medida que o protocolo UCP se expande globalmente, a Square planeja implementar essas capacidades para que seus vendedores permaneçam na vanguarda. Para os mais de 4,5 milhões de vendedores atualmente usando a Square, a promessa do comércio agêntico é clara: uma maneira de capturar a próxima geração de tráfego da internet sem sacrificar as margens de lucro necessárias para manter suas portas abertas.
Conclusão
A integração da Square com ChatGPT e Claude representa mais do que apenas uma nova funcionalidade técnica – é um vislumbre do futuro do comércio digital. Em um mundo onde assistentes de IA se tornam cada vez mais centrais na jornada de compra do consumidor, a capacidade de aceitar pedidos diretamente dessas plataformas, sem as onerosas taxas de marketplace, pode ser a diferença entre prosperidade e sobrevivência para muitos negócios de alimentação.
Se a Square conseguir rotear com sucesso pedidos de IA diretamente para os sistemas POS de negócios locais – contornando o pedágio de 30% dos agregadores de delivery – isso pode marcar uma mudança massiva em como a indústria de restaurantes navega na economia digital moderna. Para o mercado brasileiro, onde as margens já apertadas dos restaurantes são ainda mais pressionadas por altas taxas de comissão, esta inovação não pode chegar rápido o suficiente. O futuro do comércio está sendo reescrito, e desta vez, os pequenos negócios podem finalmente ter uma chance justa de competir.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em VentureBeat, disponível em https://venturebeat.com/technology/restaurants-can-now-accept-orders-placed-directly-from-chatgpt-and-claude-thanks-to-squares-new-low-fee-no-setup-integration.



