Introdução
A corrida pela supremacia quântica acaba de ganhar um novo competidor de peso. A Oratomic, startup fundada por físicos do Caltech, anunciou uma rodada de investimento de US$ 300 milhões para desenvolver o que promete ser o primeiro computador quântico comercialmente viável até o final desta década. O diferencial? A empresa afirma precisar de apenas 20 mil qubits para alcançar utilidade prática, uma fração do que outras empresas estimam necessário. Em um mercado onde gigantes como IBM, Google e startups bilionárias competem por avanços incrementais, a abordagem da Oratomic pode representar um atalho significativo para a computação quântica útil.
A revolução dos 20 mil qubits
Enquanto empresas como a PsiQuantum apostam em sistemas com milhões de qubits para alcançar viabilidade comercial, a Oratomic propõe uma arquitetura radicalmente mais eficiente. A startup utiliza lasers como ‘pinças ópticas’ para manter átomos individuais em posição, criando a base para seu computador quântico. Essa abordagem não é inteiramente nova – empresas como Atom Computing e QuEra também trabalham com átomos neutros – mas o verdadeiro diferencial está na correção de erros.
A equipe da Oratomic descobriu um método de correção de erros quânticos que requer significativamente menos qubits do que se acreditava possível anteriormente. Em computação quântica, a correção de erros é o Santo Graal: os qubits são extremamente sensíveis a interferências do ambiente, e sem correção eficaz, os cálculos se tornam inúteis rapidamente. Tradicionalmente, estima-se que sejam necessários centenas ou milhares de qubits físicos para criar um único qubit lógico estável. A Oratomic aparentemente quebrou essa barreira.
Por que isso importa para o mercado
A diferença entre 20 mil e um milhão de qubits não é apenas numérica – é econômica e prática. Sistemas menores são mais baratos de construir, mais fáceis de manter e podem chegar ao mercado mais rapidamente. Para empresas brasileiras que consideram investir em computação quântica para otimização logística, descoberta de fármacos ou modelagem financeira, a promessa da Oratomic significa que essa tecnologia pode estar disponível anos antes do previsto.
Investidores apostam alto na abordagem diferenciada
A rodada Série A de US$ 300 milhões foi co-liderada por pesos-pesados do venture capital: ARCH Venture Partners, Spark Capital e Khosla Ventures. A participação de Bezos Expeditions (o veículo de investimento de Jeff Bezos), Index Ventures, General Catalyst, Lowercarbon Capital e Bain Capital demonstra confiança institucional na abordagem da empresa. Vinod Khosla, da Khosla Ventures, foi ainda mais enfático, declarando no X (antigo Twitter) que este foi o ‘maior investimento inicial’ de sua firma até hoje.
Esse nível de financiamento coloca a Oratomic em uma posição privilegiada no ecossistema quântico. Para comparação, a rodada é comparável aos investimentos recebidos por empresas mais maduras do setor, mas a Oratomic está apenas começando. O capital será usado para acelerar o desenvolvimento do hardware, contratar talentos especializados e construir as instalações necessárias para fabricação e testes.
Estratégia contrária ao mercado
Diferentemente de competidores como IBM, Google, Rigetti e IonQ, que disponibilizam protótipos NISQ (Noisy Intermediate-Scale Quantum) para pesquisadores e empresas, a Oratomic não planeja vender sistemas intermediários. A empresa está apostando tudo em entregar diretamente um computador quântico tolerante a falhas, pulando completamente a fase NISQ.
Dolev Bluvstein, co-fundador e CEO da Oratomic, explicou a mudança de mentalidade: ‘Você não teria conseguido convencer nenhum de nós a iniciar uma empresa de computação quântica anteriormente, porque achávamos que estava muito distante. Apenas quando fizemos essa descoberta recente, todos mudamos de ideia simultaneamente.’
Essa abordagem ‘tudo ou nada’ contrasta com o modelo incremental adotado pela maioria do setor. Empresas como a brasileira QuintoAndar ou o Itaú já experimentam com computadores quânticos NISQ através de parcerias com IBM e AWS para explorar casos de uso preliminares. A Oratomic está essencialmente dizendo: esperem mais um pouco, mas quando entregarmos, será algo verdadeiramente transformador.
O contexto do boom quântico
O anúncio da Oratomic ocorre em um momento de efervescência no setor quântico. Várias startups da área, incluindo Infleqtion e Quantinuum, abriram capital em 2026, enquanto empresas públicas estabelecidas como Rigetti e IonQ viram suas ações disparar nos últimos 18 meses. O mercado está claramente apostando que a computação quântica está se aproximando de um ponto de inflexão comercial.
Para o ecossistema brasileiro de tecnologia, esses desenvolvimentos são particularmente relevantes. Setores como agronegócio (otimização de rotas e previsão climática), farmacêutico (descoberta de moléculas) e financeiro (modelagem de risco e otimização de portfólio) podem se beneficiar enormemente da computação quântica. A promessa de sistemas mais acessíveis e viáveis pode acelerar a adoção no país.
Implicações para o mercado de tecnologia
Se a Oratomic cumprir sua promessa, as implicações são profundas. Primeiro, a barreira de entrada para computação quântica útil cairia drasticamente. Empresas que hoje hesitam em investir devido aos altos custos e incertezas técnicas podem reconsiderar. Segundo, aplicações práticas em inteligência artificial, criptografia, descoberta de materiais e otimização complexa podem se tornar realidade anos antes do esperado.
Para profissionais de TI e executivos de tecnologia brasileiros, isso significa que é hora de começar a se preparar. Entender os fundamentos da computação quântica, identificar casos de uso potenciais em suas organizações e desenvolver parcerias estratégicas serão diferenciais competitivos importantes. A corrida não é mais sobre ‘se’ a computação quântica será viável, mas ‘quando’ – e a Oratomic está apostando que esse ‘quando’ é muito mais próximo do que imaginávamos.
Desafios pela frente
Apesar do otimismo, desafios significativos permanecem. A Oratomic ainda precisa demonstrar que sua abordagem de correção de erros funciona em escala. A empresa afirma ter ‘demonstrado experimentalmente todos os componentes principais’ em escala menor, mas escalar de demonstrações laboratoriais para sistemas comerciais é notoriamente difícil em computação quântica.
Além disso, mesmo com 20 mil qubits, construir e operar um computador quântico continua sendo uma tarefa complexa que requer ambientes ultra-controlados, temperaturas próximas ao zero absoluto e expertise altamente especializada. A Oratomic precisará não apenas construir o hardware, mas também desenvolver o software, as ferramentas de programação e o ecossistema necessário para tornar sua máquina útil para aplicações do mundo real.
Conclusão
O investimento de US$ 300 milhões na Oratomic representa uma aposta ousada em uma abordagem não convencional para computação quântica. Ao prometer entregar um computador quântico viável com apenas 20 mil qubits, a empresa desafia o consenso da indústria e pode acelerar significativamente a chegada da era quântica prática. Para o mercado brasileiro de tecnologia, isso significa que o futuro quântico pode estar mais próximo do que parece – e é hora de começar a se preparar para ele. Seja a Oratomic bem-sucedida ou não, sua abordagem já está forçando o setor a repensar suposições fundamentais sobre o que é necessário para alcançar a computação quântica útil.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em TechCrunch, disponível em https://techcrunch.com/2026/07/10/oratomic-raises-300m-to-build-a-viable-quantum-computer-that-needs-only-20k-qubits/.



