Introdução
A apenas duas horas de trem de Pequim, uma transformação silenciosa está redefinindo o mapa global da inteligência artificial. A Mongólia Interior, região historicamente conhecida pela criação de ovelhas e mineração de carvão, emergiu como o novo epicentro da infraestrutura de IA da China. Em Ulanqab, cidade com 1,5 milhão de habitantes, quase 100 data centers foram inaugurados ou iniciaram construção desde 2016, com empresas chinesas comprometendo-se a projetos que somam impressionantes 12,5 gigawatts de capacidade computacional.
O fenômeno revela uma mudança estratégica fundamental: pela primeira vez, gigantes chinesas de IA como DeepSeek, ByteDance e Alibaba estão investindo massivamente em infraestrutura própria, em vez de depender de serviços de cloud computing terceirizados. Esta corrida por capacidade computacional na remota região chinesa oferece insights valiosos sobre como geografia, energia e política moldam o futuro da IA global.
A geografia como vantagem competitiva
A escolha de Ulanqab não é acidental. Situada no Planalto da Mongólia Interior, a cidade possui características geográficas ideais para data centers de alta performance. Os longos invernos com temperaturas extremamente baixas reduzem drasticamente os custos de refrigeração – um dos maiores desafios operacionais para instalações que processam modelos de IA.
Além do clima favorável, a proximidade relativa com Pequim garante latência mínima na transmissão de dados para as regiões mais populosas da China. Dois cabos de fibra óptica dedicados, construídos em 2017 e 2019, reduziram a latência média para menos de cinco milissegundos – velocidade suficiente para suportar inferência de IA em tempo real, essencial para aplicações comerciais.
O fator mais decisivo, contudo, é econômico: a eletricidade na Mongólia Interior custa significativamente menos que em qualquer outra região chinesa, impulsionada tanto pelo crescimento acelerado de energia eólica e solar quanto pela abundância de carvão local.
O boom dos data centers chineses
Os números impressionam quando comparados globalmente. Enquanto o projeto Stargate da OpenAI, orçado em 500 bilhões de dólares, planeja alcançar 10 gigawatts de capacidade total quando concluído, apenas Ulanqab já comprometeu 12,5 gigawatts – com 70% desses compromissos anunciados apenas no último ano.
Esta explosão de investimentos marca uma virada estratégica para as empresas chinesas de IA. Historicamente, companhias como Baidu, Alibaba e Tencent desenvolveram modelos competitivos gastando frações do que seus pares americanos investem em infraestrutura física. O boom em Ulanqab sinaliza que essa dinâmica está mudando rapidamente.
DeepSeek, a startup que recentemente abalou o mercado global com seus modelos eficientes, está construindo um data center massivo na região. ByteDance, dona do TikTok, e Xiaohongshu também anunciaram projetos significativos. Esta verticalização da infraestrutura sugere que as empresas chinesas estão se preparando para uma nova fase de competição em IA, onde controle direto sobre capacidade computacional será diferencial estratégico.
Energia renovável e o paradoxo ambiental
O governo chinês vê nos data centers de IA uma solução elegante para outro desafio: o excesso de capacidade de energia renovável. Pesquisadores identificaram uma correlação positiva entre regiões com energia renovável não utilizada e aquelas que mais constroem data centers.
A Envision, uma das maiores fabricantes chinesas de turbinas eólicas, anunciou este mês a construção de um data center de 2 gigawatts em Ulanqab, conectado diretamente ao seu próprio fornecimento de energia limpa. O projeto exemplifica a visão governamental de criar um ciclo virtuoso entre expansão da IA e transição energética.
No entanto, a realidade é mais complexa. Aproximadamente 37% da eletricidade em Ulanqab ainda vem do carvão. Como data centers precisam operar 24 horas por dia, a confiabilidade dos combustíveis fósseis continua sendo atrativa para operadores. A Mongólia Interior, historicamente o ‘West Virginia da China’ em termos de dependência do carvão, enfrenta o desafio de acelerar sua transição energética enquanto atende à demanda explosiva por computação.
O desafio hídrico
Se energia abundante e barata é o grande atrativo de Ulanqab, a escassez de água representa seu calcanhar de Aquiles. A cidade recebe apenas 35 centímetros de chuva por ano – comparável a Denver nos Estados Unidos – criando um paradoxo para data centers que dependem de sistemas de refrigeração baseados em água.
A situação já é crítica. No mês passado, a companhia local de água foi forçada a interromper o fornecimento por sete horas todas as noites para gerenciar o pico de demanda. Embora os data centers necessitem de refrigeração adicional por água apenas durante dois meses do ano devido ao clima frio, o crescimento projetado da infraestrutura pode agravar significativamente o estresse hídrico regional.
Este dilema ilustra os trade-offs complexos do desenvolvimento tecnológico: enquanto a China acelera sua capacidade em IA para competir globalmente, comunidades locais podem enfrentar consequências ambientais significativas.
Implicações para o mercado global
O fenômeno de Ulanqab oferece lições importantes para o mercado global de IA. Primeiro, demonstra que a competição em infraestrutura está se intensificando além das fronteiras americanas. Enquanto Silicon Valley debate regulamentações e custos crescentes, a China constrói capacidade em escala sem precedentes.
Segundo, revela uma mudança no modelo de negócios das empresas chinesas de IA. A transição de aluguel para propriedade de infraestrutura sugere maturidade do mercado e confiança no retorno de longo prazo. Com startups como DeepSeek e Moonshot AI atraindo usuários pagantes domésticos, há finalmente um business case viável para investimentos massivos em hardware.
Para empresas brasileiras e latino-americanas, o exemplo chinês levanta questões estratégicas. Como competir quando rivais asiáticos têm acesso a infraestrutura de baixo custo em escala massiva? Quais parcerias ou modelos alternativos podem viabilizar desenvolvimento competitivo de IA sem os mesmos recursos?
O futuro da computação distribuída
A experiência da Mongólia Interior também aponta para tendências futuras em arquitetura de data centers. O projeto governamental ‘Eastern Data, Western Compute’ (Dados no Leste, Computação no Oeste) representa uma visão de computação geograficamente distribuída que pode inspirar outros países.
Inicialmente relegados a backup devido à alta latência, os data centers remotos encontraram novo propósito com o treinamento de modelos de IA – processo que pode levar meses e não requer interação em tempo real. Esta especialização geográfica – treinamento em regiões remotas baratas, inferência próxima aos usuários – pode se tornar padrão global.
A conectividade melhorada através de fibra óptica dedicada também demonstra que distância física não é mais barreira intransponível. Com latências abaixo de 5 milissegundos, até aplicações sensíveis ao tempo tornam-se viáveis.
Conclusão
A transformação de Ulanqab de cidade agrícola em hub de IA ilustra como a geografia da inovação tecnológica está sendo reescrita. Fatores tradicionalmente vistos como desvantagens – localização remota, clima extremo – tornaram-se vantagens competitivas na era da IA.
O sucesso desta estratégia dependerá da capacidade da China de equilibrar crescimento acelerado com sustentabilidade ambiental. A promessa de data centers alimentados por energia renovável é atraente, mas a realidade atual ainda depende significativamente de carvão. O estresse hídrico adiciona outra camada de complexidade.
Para o mercado global, Ulanqab serve como lembrete de que a corrida pela supremacia em IA não se limita a algoritmos e talentos – infraestrutura física em escala massiva está se tornando igualmente crítica. Enquanto o Ocidente debate ética e regulamentação, a China constrói os alicerces físicos para a próxima geração de IA. O resultado desta corrida assimétrica moldará o futuro da tecnologia nas próximas décadas.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria “The Unlikely Place at the Center of China’s AI Boom” publicada em Wired, disponível em https://www.wired.com/story/the-unlikely-place-at-the-center-of-chinas-ai-boom/.



