Introdução
O governo americano acaba de dar um passo histórico para a integração da inteligência artificial no sistema de saúde. O Medicare, programa federal de saúde que atende mais de 65 milhões de americanos, lançou o ACCESS (Advancing Chronic Care with Effective, Scalable Solutions), um modelo de pagamento revolucionário que, pela primeira vez, permite remunerar diretamente o trabalho de agentes de IA no cuidado de pacientes. A iniciativa, que entra em vigor em 5 de julho, representa uma mudança fundamental na forma como os serviços de saúde são pagos e prestados nos Estados Unidos.
Entre as 150 organizações selecionadas para o programa piloto está a Pair Team, uma empresa que passou sete anos desenvolvendo soluções para populações vulneráveis – justamente aquelas que o Vale do Silício tradicionalmente ignora. A companhia, que já atende pacientes com condições crônicas e problemas sociais complexos como falta de moradia e insegurança alimentar, agora está no centro de uma transformação que pode redefinir o futuro da medicina assistida por IA.
O problema que o ACCESS resolve
O sistema tradicional do Medicare opera com uma lógica simples mas limitada: paga-se pelo tempo que um profissional de saúde passa com o paciente. Não existe mecanismo para remunerar um agente de IA que monitora o paciente entre consultas, faz ligações para verificar como está, coordena encaminhamentos para serviços sociais ou garante que a pessoa pegou seus medicamentos na farmácia. Essas atividades, fundamentais para o cuidado contínuo mas impossíveis de escalar com equipes humanas, simplesmente não tinham como ser pagas.
Neil Batlivala, CEO da Pair Team, explica a magnitude da mudança: ‘É uma transformação no modelo de pagamento. Você simplesmente não podia fazer isso antes’. O ACCESS muda essa realidade ao criar um sistema de pagamento baseado em resultados, não em atividades. As organizações participantes recebem valores previsíveis para gerenciar condições específicas – diabetes, hipertensão, doença renal crônica, obesidade, depressão e ansiedade – e só recebem o valor integral quando os pacientes atingem metas mensuráveis de saúde, como redução da pressão arterial ou diminuição da dor.
Flora: a IA que conversa por horas com pacientes vulneráveis
A Pair Team ilustra perfeitamente o potencial dessa nova abordagem. A empresa, que emprega cerca de 850 profissionais clínicos e opera a maior força de trabalho de saúde comunitária da Califórnia, há nove meses implementou Flora, um agente de voz baseado em IA que se tornou a interface principal com os pacientes. Disponível 24 horas por dia, Flora realiza triagens, coordena encaminhamentos e mantém o engajamento dos pacientes entre as visitas clínicas.
O momento decisivo para Batlivala veio durante uma ligação entre Flora e uma mulher de 67 anos que vivia em seu carro, lidando com transtorno de estresse pós-traumático e insuficiência cardíaca congestiva. A conversa durou mais de uma hora. ‘Foi ao mesmo tempo incrível e deprimente’, relembra o executivo. ‘Flora provavelmente era a única ‘pessoa’ com quem ela havia conversado sobre sua situação em semanas’. Agora, conversas de uma hora com Flora são rotineiras. ‘Essa é a peça do companheirismo’, diz ele. ‘E descobrimos que isso é verdadeiramente uma intervenção’.
Os resultados da Pair Team são impressionantes. Um estudo revisado por pares e publicado no Journal of General Internal Medicine mostrou reduções significativas em visitas evitáveis a emergências e internações. Segundo Batlivala, uma em cada quatro hospitalizações e uma em cada duas visitas ao pronto-socorro não acontecem quando um paciente está sob os cuidados de sua empresa.
Um programa desenhado por empreendedores
O ACCESS não é uma iniciativa burocrática típica. Foi arquitetado por Abe Sutton e Jacob Shiff, respectivamente Diretor e Chief AI and Technology Officer do Centro de Inovação do CMS. Sutton foi anteriormente investidor de venture capital em um fundo de saúde chamado Rubicon Founders. Shiff é um ex-fundador no setor de saúde. Ambos entraram no CMS durante a administração Trump, e suas origens empreendedoras se refletem no design do programa: pagamentos baseados em resultados, inscrição direta ao consumidor e uma busca deliberada por competição.
O primeiro grupo de participantes é diverso, incluindo startups de médicos com IA, provedores de terapia nutricional virtual, empresas de dispositivos conectados e fabricantes de wearables como Whoop. Batlivala é cético sobre alguns deles: ‘Sou um grande fã de wearables, mas para um idoso que está lutando com insegurança alimentar, não sei o quanto o Whoop será capaz de fazer’.
Riscos e desafios do novo modelo
A iniciativa não está isenta de riscos significativos. Os participantes estão alimentando dados extremamente sensíveis de pacientes – conversas íntimas sobre moradia, doenças e saúde mental – em uma infraestrutura federal com histórico documentado de violações, incluindo vazamento de números de Seguro Social. Para as populações vulneráveis que o ACCESS pretende atender, essa não é uma preocupação impraticável.
Há também riscos financeiros consideráveis. O histórico dos programas de inovação do CMS é misto. Uma análise de 2023 do Congressional Budget Office descobriu que o Centro de Inovação do CMS aumentou os gastos federais em 5,4 bilhões de dólares durante sua primeira década, em vez de produzir as economias projetadas. Além disso, o CMS está pagando menos por paciente por mês do que muitos participantes esperavam, o que significa que a matemática só funciona para organizações que automatizaram completamente a maioria de suas interações com pacientes.
Para Batlivala, essa limitação de reembolso é intencional: ‘Se você quer construir um modelo que realmente incentive o uso de IA, as taxas de reembolso têm que ser baixas. A economia só funciona se você está operando uma operação enxuta e focada em IA’.
O que isso significa para o futuro da saúde
O ACCESS representa muito mais do que um novo programa governamental – é uma mudança fundamental na forma como pensamos sobre cuidados de saúde na era da IA. Pela primeira vez, existe um mecanismo oficial para pagar por serviços que só a IA pode fornecer em escala: monitoramento contínuo, check-ins frequentes, coordenação de cuidados complexos e suporte emocional 24/7.
Para o Brasil, onde o SUS atende mais de 150 milhões de pessoas e enfrenta desafios similares de escala e recursos limitados, o modelo americano oferece lições valiosas. A possibilidade de usar IA para estender o alcance dos profissionais de saúde, especialmente em áreas remotas ou para populações vulneráveis, poderia transformar a prestação de cuidados primários no país.
O setor de healthtech brasileiro, que já movimenta bilhões e atrai investimentos crescentes, pode encontrar no ACCESS um modelo para futuras parcerias público-privadas. Empresas como Dr. Consulta, Alice e outras que já exploram telemedicina e IA poderiam se beneficiar de modelos similares de pagamento por resultado.
Conclusão
O lançamento do ACCESS marca um ponto de inflexão na integração da IA nos sistemas de saúde. Ao criar o primeiro mecanismo de pagamento governamental para agentes de IA, o Medicare está efetivamente legitimando e incentivando o uso dessa tecnologia no cuidado direto ao paciente. O sucesso de empresas como a Pair Team, que já demonstra resultados concretos na redução de hospitalizações e no aumento do engajamento de pacientes vulneráveis, sugere que estamos apenas no início de uma transformação profunda.
Enquanto investidores de saúde digital observam atentamente – o financiamento no setor atingiu seu maior primeiro trimestre desde a pandemia este ano – o ACCESS permanece relativamente desconhecido fora dos círculos especializados. Isso pode mudar rapidamente à medida que os resultados do programa de 10 anos começarem a aparecer. Para o ecossistema global de saúde, incluindo o brasileiro, a mensagem é clara: a IA não é mais uma promessa futura na medicina – ela já está aqui, conversando com pacientes por horas e salvando vidas.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em TechCrunch, disponível em https://techcrunch.com/2026/05/12/medicares-new-payment-model-is-built-for-ai-and-most-of-the-tech-world-has-no-idea/.



