Instacart revoluciona desenvolvimento: 97% do código agora é gerado por IA

    Tempo de leitura: 4 minutesInstacart revela que 97% do seu código é gerado por IA, eliminando preocupações com dívida técnica e redefinindo o papel dos engenheiros de software

    28 de julho de 2026

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    Instacart revoluciona desenvolvimento: 97% do código agora é gerado por IA
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    Introdução

    A Instacart, gigante americana de entregas de supermercado, está desafiando paradigmas fundamentais do desenvolvimento de software. Em apresentação no VB Transform 2026, o CTO Anirban Kundu revelou uma estatística impressionante: em 97% dos casos, os engenheiros da empresa não leem mais código. Agentes de IA assumiram essa função, transformando radicalmente o papel dos desenvolvedores e eliminando preocupações históricas com dívida técnica. Esta mudança radical levanta questões profundas sobre o futuro da engenharia de software e pode indicar o caminho que outras empresas seguirão nos próximos anos.

    A nova realidade do desenvolvimento sem leitura de código

    O modelo tradicional de desenvolvimento, onde engenheiros passam horas analisando, debugando e refatorando código legado, está sendo completamente reimaginado na Instacart. Segundo Kundu, o nível tático do trabalho de engenharia mudou fundamentalmente. Antes, criar código era a essência do trabalho. Agora, a habilidade mais importante é navegar sistemas de IA para obter os resultados desejados.

    Os agentes de IA da empresa lidam com toda a geração de código boilerplate e estruturas básicas, especialmente em projetos novos. O mais surpreendente é a frequência dessa regeneração: o código é recriado semanalmente, eliminando o acúmulo de dívida técnica que historicamente assombra equipes de desenvolvimento. É como se o software fosse constantemente reconstruído do zero, mantendo-se sempre limpo e atualizado.

    Os 3% restantes onde humanos ainda precisam intervir diretamente no código envolvem sistemas legados críticos, requisitos de compliance específicos e componentes com restrições severas de latência. A empresa está trabalhando ativamente para reduzir ainda mais essa porcentagem através do projeto Atoms, que decompõe monolitos em arquiteturas modulares baseadas em RPC (Remote Procedure Call).

    O fim da dívida técnica como conhecemos

    A declaração mais provocativa de Kundu foi sobre dívida técnica: a Instacart simplesmente parou de se preocupar com ela. Quando código pode ser regenerado semanalmente por IA, conceitos tradicionais de manutenção e refatoração perdem relevância. Código inativo é automaticamente descartado e reconstruído quando necessário, similar ao processo de compilação de assembly para código objeto.

    Esta abordagem representa uma mudança paradigmática para CTOs e gestores de tecnologia brasileiros. Empresas nacionais frequentemente lutam com sistemas legados acumulados ao longo de décadas, consumindo recursos significativos em manutenção. O modelo da Instacart sugere que, ao invés de refatorar continuamente, pode ser mais eficiente reconstruir com IA.

    Para o mercado brasileiro, onde muitas empresas ainda operam com sistemas desenvolvidos há 10 ou 20 anos, esta visão pode parecer utópica. No entanto, startups e empresas digitalmente nativas já podem começar a adotar essa filosofia, evitando o acúmulo de dívida técnica desde o início.

    Avaliação e confiabilidade em escala com IA

    Com IA gerando a maior parte do código, os processos tradicionais de code review tornaram-se obsoletos. Como observou Kundu, a sintaxe e estrutura do código gerado por IA são consistentemente corretas. O desafio agora é validar se o código atende à intenção do desenvolvedor.

    A Instacart executa aproximadamente 7.000 avaliações automáticas mensalmente, com o sistema respondendo a mais de 8.000 consultas de desenvolvedores em tempo real com 99,9% de precisão. Este nível de confiabilidade só foi possível através de um modelo de ‘intenção’, onde desenvolvedores são treinados para fazer as perguntas certas aos modelos de IA.

    Esta mudança tem implicações profundas para a formação de desenvolvedores. Universidades e bootcamps brasileiros ainda focam intensamente em sintaxe e estruturas de código. O modelo da Instacart sugere que o futuro está em ensinar engenheiros a articular intenções claras e supervisionar sistemas de IA, não em memorizar padrões de código.

    SRE autônomo: quando IA diagnostica melhor que humanos

    Talvez ainda mais impressionante seja o sistema de Site Reliability Engineering (SRE) baseado em agentes da Instacart. Treinado com anos de dados de incidentes reais da empresa, não com falhas genéricas, o sistema aumentou a precisão na detecção e mitigação de problemas de produção de 60% para mais de 90%.

    O caso do Blueberry, ferramenta interna de SRE da Instacart, ilustra perfeitamente essa evolução. Monitorando mais de 200 canais do Slack simultaneamente, o sistema identificou um problema sutil em um shard de banco de dados causado por uma configuração inadequada do sistema ‘roulette’ de feature flags. Enquanto a equipe humana ainda investigava possíveis causas, Blueberry já havia diagnosticado o problema real em apenas 20 minutos.

    Kundu destacou um ponto crucial: a intuição humana, muitas vezes valorizada em troubleshooting, pode na verdade atrapalhar. Engenheiros tendem a buscar padrões familiares primeiro, potencialmente ignorando causas menos óbvias. A IA, por outro lado, analisa todos os dados disponíveis sem viés, identificando correlações que humanos poderiam perder.

    Redefinindo o papel do engenheiro de software

    No novo modelo da Instacart, o trabalho mais tático dos engenheiros envolve: projetar e supervisionar processos de avaliação; coordenar múltiplos experimentos simultâneos; gerenciar restrições como tráfego limitado para testes; identificar quando escalar problemas; e reconhecer casos extremos onde sistemas podem falhar.

    A democratização do código também está transformando estruturas organizacionais. Tradicionalmente, equipes específicas ‘possuem’ partes do código e são as únicas autorizadas a modificá-las. A Instacart está migrando para um modelo onde conhecimento de domínio é incorporado em especificações que qualquer equipe pode usar, eliminando gargalos e acelerando desenvolvimento.

    Para empresas brasileiras, esta transição apresenta desafios e oportunidades. Desenvolvedores seniores precisarão adaptar suas habilidades, focando menos em implementação e mais em arquitetura e supervisão de sistemas. Juniores podem pular etapas tradicionais de aprendizado, indo direto para trabalho de maior valor agregado.

    Implicações para o mercado brasileiro

    O modelo da Instacart pode parecer distante da realidade de muitas empresas brasileiras, mas oferece lições valiosas. Primeiro, sugere que investir em modernização completa com IA pode ser mais eficiente que manutenção incremental de sistemas legados. Segundo, indica que a formação de desenvolvedores precisa evoluir rapidamente para manter relevância.

    Empresas de tecnologia brasileiras como Nubank, iFood e Mercado Livre, que já operam na fronteira tecnológica, provavelmente explorarão modelos similares nos próximos anos. Startups têm a vantagem de começar com esta filosofia desde o início, potencialmente alcançando níveis de produtividade impossíveis com métodos tradicionais.

    O setor de consultoria e desenvolvimento de software terceirizado, forte no Brasil, também precisará se adaptar. Modelos de cobrança por hora de desenvolvimento podem se tornar obsoletos quando IA gera código em minutos. O valor migrará para expertise em arquitetura, integração e supervisão de sistemas de IA.

    Conclusão

    A experiência da Instacart representa um vislumbre convincente do futuro do desenvolvimento de software. Quando 97% do código é gerado por máquinas e dívida técnica deixa de ser uma preocupação, o papel do engenheiro de software muda fundamentalmente. Esta transformação não é apenas sobre eficiência, mas sobre reimaginar completamente como software é criado e mantido.

    Para o mercado brasileiro, a mensagem é clara: a revolução da IA no desenvolvimento não é uma possibilidade distante, mas uma realidade presente em empresas líderes globais. Organizações que começarem a experimentar com esses modelos agora estarão melhor posicionadas para competir na economia digital do futuro. A pergunta provocativa de Kundu ecoa: seu time ainda lê código? Em breve, esta pode ser uma prática tão antiquada quanto programar em cartões perfurados.


    Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em VentureBeat, disponível em https://venturebeat.com/orchestration/instacarts-cto-says-ai-made-the-company-stop-worrying-about-tech-debt.

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