Introdução
A IBM acaba de anunciar na conferência Hot Chips uma das mudanças mais significativas na arquitetura de mainframes em décadas: um processador cujos núcleos podem executar nativamente tanto o conjunto de instruções proprietário da IBM quanto o da Arm, alternando entre eles em nanossegundos. Esta inovação representa um marco histórico para empresas que dependem de sistemas mainframe legados, especialmente no setor financeiro brasileiro, onde grandes bancos e seguradoras ainda processam suas transações críticas nessas máquinas robustas.
O novo chip, que equipará a próxima geração dos sistemas IBM Z e LinuxONE, é o primeiro processador mainframe de arquitetura dual já construído. Sua importância transcende a mera inovação técnica: ele permite que empresas executem o vasto ecossistema de software Linux nativo para Arm — incluindo os frameworks de IA que cada vez mais definem a infraestrutura moderna — diretamente ao lado das cargas de trabalho z/OS que sustentam operações críticas em instituições financeiras e governamentais ao redor do mundo.
A engenharia por trás da arquitetura dual
O que torna este processador verdadeiramente revolucionário é a decisão de engenharia da IBM. Em vez de simplesmente adicionar alguns núcleos Arm dedicados ao lado do processador principal — uma abordagem mais simples que outros fabricantes já utilizaram para computação heterogênea — a IBM construiu cada um dos 11 núcleos do chip para ser bilíngue. Cada núcleo pode alternar dinamicamente entre o modo de software Arm e o modo tradicional Z, uma capacidade sem precedentes no mundo dos mainframes.
O mecanismo de alternância utiliza o hypervisor KVM de código aberto. Na prática, empresas podem executar máquinas virtuais Linux Arm64 e Linux on Z lado a lado no mesmo chip. Quando o hypervisor despacha cada máquina virtual para um núcleo físico, este automaticamente muda para o modo correspondente. O mais impressionante é que essa transição acontece em escala de nanossegundos, tornando o overhead de performance praticamente imperceptível durante a operação normal.
As especificações técnicas revelam que não houve compromissos no design. Construído em um processo de fabricação de 2 nanômetros de última geração, o chip executa seus 11 núcleos de alto desempenho a uma frequência base superior a 5,7 GHz — extraordinariamente rápida pelos padrões da indústria. Além disso, inclui aceleradores de IA integrados para detecção de fraude em tempo real durante transações, uma unidade de processamento de dados dedicada para aceleração de I/O e uma arquitetura de cache robusta. Sistemas completos poderão escalar para centenas de núcleos e dezenas de terabytes de memória.
Por que o mainframe precisava dos 22 milhões de desenvolvedores Arm
A lógica estratégica por trás desta inovação está fundamentada em software, não em hardware. Embora a arquitetura s390x da IBM processe uma parcela enorme das transações críticas mundiais, o universo mais amplo de software empresarial — ferramentas de monitoramento, agentes de segurança, middleware cloud-native e, principalmente, a stack de IA com PyTorch, ONNX Runtime e cargas de trabalho em containers — foi construído para x86 e, crescentemente, para Arm.
Para contextualizar a importância desta mudança no cenário brasileiro, basta considerar que grandes bancos como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil ainda dependem fortemente de mainframes para processar milhões de transações diárias. Até agora, integrar novas tecnologias de IA e análise de dados a esses sistemas exigia complexos processos de portabilidade ou camadas intermediárias que aumentavam latência e custos. Com a nova arquitetura dual, essas instituições poderão executar modelos de IA modernos diretamente onde os dados residem, eliminando gargalos e reduzindo riscos de segurança associados à movimentação de dados sensíveis.
A promessa de compatibilidade é ambiciosa: binários Linux para Arm devem rodar sem modificações. Isso significa que todo o ecossistema de software desenvolvido para processadores Arm — incluindo as distribuições Red Hat Enterprise Linux amplamente utilizadas em ambientes corporativos brasileiros — funcionará nativamente no novo mainframe. Esta compatibilidade é garantida pela própria Arm, que define o conjunto de instruções e fornece ferramentas de validação para assegurar que a implementação da IBM se comporte identicamente a qualquer outro chip Arm.
O papel da IA empresarial na nova arquitetura
A IBM também está apresentando a próxima geração de seu acelerador de IA Spyre no Hot Chips, e o timing não é coincidência. A arquitetura atual já oferece dois níveis de processamento de IA: um acelerador integrado ao processador, introduzido com o chip Telum em 2022, que lida com inferência de ultra-baixa latência como pontuação de fraude dentro de uma transação de pagamento, e o cartão acelerador Spyre no subsistema de I/O para modelos mais pesados.
O novo Spyre eleva consideravelmente o teto de capacidade. O acelerador será capaz de executar grandes modelos de linguagem para workflows agênticos — tanto workflows de AI-ops que administram o próprio sistema quanto workflows de negócios para tarefas como compreensão de documentos e adjudicação de seguros. Esta capacidade é particularmente relevante para o mercado brasileiro de seguros e previdência, onde a análise automatizada de sinistros e documentos pode acelerar drasticamente os processos de aprovação e pagamento.
A convergência entre a aposta na arquitetura dual e a aposta em IA fica evidente quando consideramos que empresas querem executar inferência próxima aos dados, os dados residem no mainframe, e as ferramentas de IA são predominantemente nativas para Arm. Para indústrias reguladas cujos sistemas de registro estão em IBM Z, executar IA onde as transações acontecem é indiscutivelmente a rota mais direta para integração profunda.
Implicações para o mercado brasileiro
Para o mercado brasileiro, onde mainframes ainda processam a maioria das transações bancárias e de cartões de crédito, esta inovação representa uma mudança de paradigma. Empresas que vinham postergando modernizações devido aos altos custos e riscos de migração agora têm um caminho claro para incorporar tecnologias modernas sem abandonar seus investimentos em sistemas legados.
O timing é particularmente oportuno considerando as iniciativas de Open Banking e Pix no Brasil, que demandam cada vez mais capacidade de processamento em tempo real e integração com sistemas modernos de análise e IA. A capacidade de executar modelos de detecção de fraude de última geração diretamente no mainframe, sem latência adicional, pode ser um diferencial competitivo significativo para instituições financeiras brasileiras.
Além disso, a compatibilidade com o ecossistema Arm abre portas para que empresas brasileiras aproveitem o vasto conjunto de ferramentas e aplicações desenvolvidas para cloud computing, muitas das quais já são otimizadas para processadores Arm graças ao sucesso do AWS Graviton, Google Axion e chips Arm da Microsoft nos principais provedores de nuvem.
Cronograma e garantias para clientes existentes
Compradores precisarão ter paciência. O chip estreará no sucessor do z17, com lançamento previsto para aproximadamente 2028, seguindo o ciclo de produto de três anos da IBM. No entanto, executivos da empresa enfatizam que o programa já está bem além da fase conceitual, com desenvolvimento em ritmo acelerado.
Para a base instalada da IBM, surge naturalmente a questão se abraçar Arm sinaliza um eventual abandono da arquitetura tradicional. A resposta da empresa é categórica: trata-se de uma adição, não substituição. A IBM mantém um roadmap de desenvolvimento que se estende por 10 a 15 anos, com equipes já trabalhando não apenas no próximo sistema, mas nos subsequentes.
Esta abordagem de continuidade é crucial para o mercado brasileiro, onde instituições financeiras e governamentais fizeram investimentos substanciais em sistemas mainframe e precisam de garantias de longo prazo. A mensagem é clara: o suporte à arquitetura Z tradicional continuará robusto, enquanto a capacidade Arm adiciona novas possibilidades sem comprometer o existente.
Conclusão
A introdução de um processador mainframe com arquitetura dual representa mais do que uma inovação técnica — é uma resposta estratégica aos desafios de modernização enfrentados por grandes corporações, especialmente no setor financeiro. Para o mercado brasileiro, onde mainframes continuam sendo a espinha dorsal de operações críticas, esta tecnologia oferece um caminho evolutivo que preserva investimentos existentes enquanto abre portas para inovações em IA e computação moderna.
O mainframe, que por décadas foi visto como tecnologia legada destinada à obsolescência, demonstra mais uma vez sua capacidade de reinvenção. Ao aprender a falar fluentemente a linguagem da era da IA — mantendo suas características únicas de confiabilidade, segurança e processamento de alto volume — a IBM está posicionando o mainframe não como relíquia do passado, mas como plataforma essencial para o futuro da computação empresarial. Para empresas brasileiras que dependem dessas máquinas robustas, a mensagem é encorajadora: o futuro chegará sem deixar o passado para trás.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria “IBM’s next-gen mainframe chip is the first to run Arm and Z workloads on the same cores” publicada em VentureBeat, disponível em https://venturebeat.com/infrastructure/ibms-next-gen-mainframe-chip-is-the-first-to-run-arm-and-z-workloads-on-the-same-cores.



