Introdução
A forma como os preços são definidos nas prateleiras dos supermercados está passando por uma transformação silenciosa mas profunda. Sistemas de inteligência artificial conectados a etiquetas eletrônicas já permitem que varejistas ajustem valores em tempo real, analisando dezenas de variáveis simultaneamente. No Brasil, grandes redes começam a adotar a tecnologia que promete revolucionar a experiência de compra e a gestão do varejo, seguindo tendências já consolidadas em mercados como Estados Unidos e Europa.
Como funciona a precificação inteligente
As etiquetas eletrônicas de prateleira, conhecidas como ESLs (Electronic Shelf Labels), são pequenos displays digitais que substituem as tradicionais etiquetas de papel. Alimentadas por bateria com duração de anos, essas telas recebem atualizações de preço diretamente de um sistema central, eliminando o processo manual que consumia horas de trabalho dos funcionários.
O verdadeiro poder da tecnologia está nos algoritmos de inteligência artificial que alimentam esses displays. Os sistemas analisam continuamente múltiplas variáveis: volume de clientes na loja em determinado horário, níveis de estoque, proximidade da data de vencimento dos produtos, preços praticados pela concorrência, condições climáticas e até eventos sazonais como feriados ou datas comemorativas.
Um caso prático ilustra bem o funcionamento: imagine um lote de iogurtes próximo ao vencimento em uma tarde de sexta-feira. O sistema detecta o alto fluxo de clientes no período, identifica o risco de perda do produto e automaticamente reduz o preço em 15% ou 20%, aumentando significativamente as chances de venda e evitando desperdício. Tudo isso acontece sem intervenção humana direta.
A adoção global e o cenário brasileiro
Nos Estados Unidos, gigantes do varejo lideram a implementação. O Walmart planeja equipar cerca de 2.300 lojas com a tecnologia, cobrindo mais de 120 mil itens por unidade. Kroger e Whole Foods também investem pesadamente na digitalização de suas prateleiras. Na Europa, redes como Carrefour e Tesco já operam com etiquetas eletrônicas há anos.
No Brasil, o movimento ganha força rapidamente. A Selbetti Tecnologia, uma das principais fornecedoras do sistema no país, reporta que 85% dos contratos fechados em 2024 foram para implementação de etiquetas eletrônicas. A empresa projeta ter 100 lojas totalmente equipadas até o final de 2026, atendendo desde grandes redes até supermercados regionais.
O interesse crescente se justifica pelos números: estudos indicam que iniciativas bem estruturadas de precificação inteligente podem gerar incremento de margem entre 2% e 5%. Em um setor que historicamente opera com margens apertadas, esse ganho representa uma vantagem competitiva significativa.
Benefícios operacionais e desafios éticos
Para os varejistas, as vantagens vão além do aumento de margem. A eliminação do processo manual de troca de etiquetas libera funcionários para atividades de maior valor agregado, como atendimento ao cliente. A precisão na precificação reduz erros que podem gerar multas ou insatisfação. E a capacidade de reagir rapidamente a mudanças de mercado permite estratégias comerciais mais sofisticadas.
No entanto, a mesma tecnologia que traz eficiência operacional levanta questões éticas importantes. Nos Estados Unidos, estados como Rhode Island, Maine e Arizona já discutem legislação para regular o uso das etiquetas digitais. A principal preocupação é com a prática conhecida como ‘surveillance pricing’ – a possibilidade de cobrar preços diferentes baseados no perfil do consumidor ou horário de compra.
Imagine um cenário onde o sistema identifica que determinado cliente sempre compra produtos premium e automaticamente ajusta os preços quando ele entra na loja. Ou uma situação onde os preços sobem nos horários de rush, quando consumidores têm menos tempo para comparar valores. Embora tecnicamente possível, grandes redes como Walmart afirmam publicamente que mantêm preços uniformes para todos os clientes de uma mesma loja.
Implicações para o mercado brasileiro
No Brasil, o debate sobre os limites éticos da precificação dinâmica ainda é incipiente, mas tende a crescer conforme mais redes adotem a tecnologia. O Código de Defesa do Consumidor já estabelece princípios de transparência e igualdade que podem ser aplicados a esse contexto, mas a velocidade da inovação tecnológica costuma superar a capacidade regulatória.
Para os consumidores brasileiros, a mudança trará impactos mistos. Por um lado, a redução de desperdício e a maior eficiência operacional podem resultar em preços médios mais baixos. A possibilidade de promoções automáticas em produtos próximos ao vencimento beneficia quem compra esses itens. Por outro lado, a opacidade dos algoritmos pode gerar desconfiança sobre como os preços são realmente definidos.
O setor supermercadista brasileiro, que movimenta centenas de bilhões de reais anualmente, está em um momento de transformação digital acelerada. A adoção de etiquetas eletrônicas é apenas uma face dessa mudança, que inclui também self-checkout, aplicativos de compra, sistemas de fidelidade baseados em dados e até experimentações com lojas autônomas sem caixas.
O futuro da precificação no varejo
A tendência é que os sistemas de precificação se tornem ainda mais sofisticados. Algoritmos de machine learning já conseguem prever padrões de demanda com precisão impressionante, antecipando desde o impacto de uma mudança climática até o efeito de um jogo de futebol nas vendas de cerveja. A integração com sistemas de supply chain permite ajustes que consideram não apenas o estoque local, mas toda a cadeia de suprimentos.
Alguns varejistas já experimentam com personalização ainda maior, enviando cupons digitais personalizados baseados no histórico de compras enquanto o cliente navega pela loja. Outros testam displays que mostram informações nutricionais, receitas ou avaliações de produtos, transformando a etiqueta em um ponto de interação digital.
A convergência entre mundo físico e digital no varejo, fenômeno conhecido como phygital, tem nas etiquetas eletrônicas um de seus exemplos mais tangíveis. É a materialização de conceitos como Internet das Coisas (IoT) e edge computing aplicados ao cotidiano de milhões de consumidores.
Conclusão
A inteligência artificial já está redefinindo como os preços são estabelecidos nos supermercados, e essa é apenas a ponta do iceberg de uma transformação muito maior no varejo. Para consumidores brasileiros, é importante entender essas mudanças não apenas como curiosidade tecnológica, mas como algo que afetará diretamente sua experiência de compra e seu bolso. O debate sobre os limites éticos dessa tecnologia precisa acompanhar sua implementação, garantindo que a eficiência operacional não comprometa princípios fundamentais de transparência e equidade. À medida que mais supermercados adotarem etiquetas eletrônicas e precificação dinâmica, a literacia digital se torna uma ferramenta essencial para o consumidor consciente navegar esse novo ambiente de compras.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em fonte-web, disponível em https://exame.com/inteligencia-artificial/como-a-inteligencia-artificial-ja-define-o-preco-nas-prateleiras-dos-supermercados/.



