Introdução
O setor farmacêutico está passando por uma transformação sem precedentes, impulsionada pela convergência de dois fatores cruciais: a inteligência artificial está revolucionando a descoberta de medicamentos ao mesmo tempo em que grandes farmacêuticas enfrentam o maior ‘penhasco de patentes’ da história. Reed Jobs, filho de Steve Jobs e CEO da Yosemite, firma de venture capital focada em oncologia, revelou em entrevista exclusiva como sua empresa está aproveitando esse momento único para acelerar o desenvolvimento de tratamentos contra o câncer usando IA como ‘parte fundamental’ do processo.
O momento perfeito: patentes expirando e IA amadurecendo
A indústria farmacêutica está vivendo um momento histórico. Segundo Jobs, as grandes farmacêuticas estão entrando no maior período de expiração de patentes já registrado, ao mesmo tempo em que acumulam reservas recordes de caixa provenientes da pandemia. Isso criou uma tempestade perfeita: empresas como Eli Lilly, que recentemente adquiriu a Kelonia por US$ 7 bilhões, estão em uma corrida aquisitiva sem precedentes nos últimos oito meses.
Paralelamente, a inteligência artificial evoluiu de uma curiosidade tecnológica para uma ferramenta essencial na descoberta de medicamentos. ‘A IA se tornou uma parte enorme do que fazemos’, afirma Jobs, cujo fundo Yosemite já investiu em cerca de 25 empresas desde 2023, com foco exclusivo em oncologia – que representa 40% de toda a biotecnologia.
Como a IA está revolucionando a descoberta de medicamentos
A aplicação prática da IA na biotecnologia vai muito além do hype. Jobs explica que a tecnologia está acelerando drasticamente o trabalho laboratorial – não necessariamente melhorando a qualidade, mas executando tarefas complexas com velocidade e reprodutibilidade sem precedentes. Um exemplo emblemático é o caso da proteína KRAS, considerada por décadas como ‘indrogável’ por sua superfície lisa, sem cavidades naturais onde moléculas de medicamentos pudessem se encaixar.
A Revolution Medicines, uma das empresas do portfólio da Yosemite, conseguiu usar IA para identificar variantes e novos métodos de bloqueio dessa proteína, dobrando a taxa de sobrevivência de pacientes com câncer pancreático de 12 para 24 meses – um avanço que aconteceu apenas no último ano. ‘A IA tem sido fantástica em encontrar bolsões que nunca conseguimos atingir antes’, explica Jobs, referindo-se à capacidade da tecnologia de identificar pontos de ataque em proteínas que interagem com outras proteínas, algo que a química tradicional considerava impossível.
Reduzindo custos e tempo em ensaios clínicos
Um dos aspectos mais promissores da IA na saúde está na otimização de ensaios clínicos, tradicionalmente o maior gargalo em tempo e custo no desenvolvimento de medicamentos. Um ensaio clínico de Fase 3 para câncer custa aproximadamente US$ 260 milhões, com apenas um em cada três obtendo sucesso. O maior custo está no recrutamento e retenção de pacientes.
A solução proposta por Jobs é revolucionária: usar IA para criar ‘braços de controle sintéticos’ – grupos de comparação gerados por computador a partir de dados existentes de pacientes. Isso poderia reduzir pela metade o número de pacientes necessários e acelerar massivamente o processo. ‘A FDA está se inclinando para isso agora mesmo’, revela Jobs, indicando que os reguladores americanos estão abertos a essa inovação.
Alvos impossíveis agora ao alcance
A Yosemite está apostando em alguns dos alvos mais desafiadores da oncologia. O principal deles é o gene p53, conhecido como o ‘guardião do genoma’. Jobs explica que quase todos os cânceres precisam desativar o p53 para existir – é um dos genes supressores de tumor mais frequentemente mutados em cânceres humanos. A empresa está atacando o p53 com três companhias diferentes usando várias estratégias.
Outro exemplo fascinante é a Tune Therapeutics, que está desenvolvendo edição epigenética para tratar hepatite B, que afeta mais de 250 milhões de pessoas globalmente e é o principal causador de câncer de fígado. A tecnologia permite adicionar ou remover grupos metil em locais específicos do DNA, funcionando como um ‘dimmer’ que aumenta ou diminui a atividade genética sem alterar o gene em si.
O modelo único da Yosemite: filantropia + venture capital
O que diferencia a Yosemite de outras firmas de venture capital em biotecnologia é seu modelo híbrido. A empresa destina 2,5% dos ativos sob gestão para um fundo filantrópico, além de US$ 1 milhão anual das taxas de administração para doações sem contrapartida. Esse dinheiro é usado para ‘desriscar’ ideias ainda embrionárias em laboratórios universitários.
Cerca de um terço do capital do fundo de US$ 350 milhões vai para empresas criadas internamente pela Yosemite, seja a partir de ideias próprias ou desenvolvidas em parceria com acadêmicos de instituições como Yale, Berkeley e Stanford. O restante é investido em empresas existentes que se alinham com a missão da firma.
O que isso significa para o futuro da medicina
A convergência de IA avançada, capital abundante e necessidade urgente de novos medicamentos está criando oportunidades sem precedentes na biotecnologia. Para o mercado brasileiro, isso tem implicações significativas. Empresas farmacêuticas locais precisarão considerar parcerias ou investimentos em IA para permanecerem competitivas. Startups brasileiras de biotecnologia podem encontrar oportunidades de colaboração com fundos internacionais como a Yosemite, especialmente se estiverem trabalhando em áreas negligenciadas ou com abordagens inovadoras.
Jobs também alerta sobre os desafios. Apesar do entusiasmo com a IA, ele enfatiza que a tecnologia ainda está principalmente acelerando processos existentes, não necessariamente criando capacidades completamente novas. Além disso, a pressão sobre o financiamento público de pesquisa continua sendo uma preocupação, com propostas de cortes no orçamento do NIH americano que poderiam impactar a pesquisa básica globalmente.
Conclusão
A história de Reed Jobs e da Yosemite ilustra um momento de inflexão na indústria farmacêutica. A inteligência artificial não é mais uma promessa futura – ela já está entregando resultados concretos na descoberta de medicamentos, desde a identificação de novos alvos terapêuticos até a otimização de ensaios clínicos. Com grandes farmacêuticas sentadas em montanhas de dinheiro e enfrentando a expiração em massa de patentes, o cenário está preparado para uma onda de inovação e aquisições. Para empreendedores e investidores brasileiros interessados em biotecnologia, o momento de prestar atenção é agora. Como Jobs coloca: ‘Este tempo é mais importante do que eu percebi, o que é ao mesmo tempo mais assustador e mais empoderador.’
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em TechCrunch, disponível em https://techcrunch.com/2026/07/11/reed-jobs-would-rather-talk-about-curing-cancer-than-his-last-name/.



