Introdução
Vijay Pande, que comandou por mais de uma década a divisão de biotecnologia da Andreessen Horowitz (a16z) com cerca de US$ 4 bilhões sob gestão, surpreendeu o mercado ao deixar o megafundo em junho de 2023 para criar algo radicalmente diferente. Sua nova firma, VZVC, representa uma aposta contraintuitiva: enquanto o mercado de venture capital corre para fazer dezenas de apostas em IA, Pande escolheu o caminho oposto – fazer apenas cerca de cinco investimentos concentrados por ano, sem associates e com operações fortemente automatizadas por inteligência artificial.
A mudança reflete uma visão profunda sobre como a IA está transformando não apenas a biotecnologia, mas também a própria prática de investimento. Para o mercado brasileiro, onde fundos de venture capital e startups de healthtech buscam modelos sustentáveis de crescimento, a abordagem de Pande oferece insights valiosos sobre concentração versus diversificação em um momento de transformação tecnológica sem precedentes.
De professor a mega-investidor: a trajetória única de Pande
Antes de se tornar uma figura central no venture capital, Vijay Pande era mais conhecido nos círculos acadêmicos como professor de química em Stanford e criador do Folding@home, o projeto de computação distribuída que transformou milhões de computadores domésticos em um supercomputador para pesquisa de doenças. Sua transição para o mundo dos investimentos aconteceu há 12 anos, quando Marc Andreessen e Ben Horowitz decidiram que era hora de apostar em saúde e ciências da vida – áreas que haviam explicitamente evitado nos primeiros cinco anos da a16z.
O timing não poderia ser melhor. Pande assumiu a liderança da prática de bio da a16z justamente quando a convergência entre IA e biologia começava a ganhar força. Ao longo de uma década, ele construiu um portfólio que incluiu apostas em empresas como Genesis Therapeutics (que surgiu de seu próprio laboratório em Stanford) e Insitro, a empresa de descoberta de medicamentos fundada por Daphne Koller, sua ex-colega em Stanford.
A biologia como ciência de engenharia, não mais de descoberta
Um dos insights mais provocativos de Pande é sua visão de que a biologia está passando por uma transformação fundamental: deixando de ser uma ‘ciência de descoberta’ para se tornar algo que pode ser engenheirado. Esta mudança de paradigma tem implicações profundas para startups brasileiras e globais no setor de saúde.
Tradicionalmente, o desenvolvimento de medicamentos dependia muito da sorte e de processos de tentativa e erro. Como Pande explica, a IA e o machine learning agora permitem que computadores compreendam sistemas extremamente complexos, desde a identificação de alvos terapêuticos específicos até o design de moléculas e a otimização de ensaios clínicos – a parte mais cara do processo de desenvolvimento de medicamentos.
No entanto, Pande é cauteloso sobre o hype excessivo. Enquanto muitos falam sobre ensaios clínicos ficando mais baratos com dados sintéticos, ele vê isso ainda como uma aspiração distante. Os ensaios clínicos ainda podem custar centenas de milhões de dólares, e a taxa de sucesso desde a primeira até a terceira fase é de apenas 20%. O problema fundamental não é erro dos biologistas, mas sim a baixa capacidade preditiva dos modelos animais em relação aos humanos.
O papel transformador da IA na medicina personalizada
A promessa da IA vai além do desenvolvimento de medicamentos. Pande vislumbra um futuro onde a medicina de precisão finalmente se torna realidade. Hoje, quando alguém vai ao médico com um problema complexo, o processo ainda é largamente baseado em tentativa e erro – se um medicamento não funciona, tenta-se outro. Esta abordagem é especialmente problemática em áreas como oncologia.
A IA pode mudar isso fundamentalmente, criando o equivalente a ter ‘uma equipe dos melhores médicos do mundo trabalhando juntos naquele momento’. Diferentemente de especialistas humanos que operam em silos (oncologistas raramente se comunicam efetivamente com endocrinologistas, por exemplo), a IA pode ser especialista em tudo simultaneamente, identificando conexões que nenhum ser humano individualmente conseguiria perceber.
O desafio único dos dados em biologia
Um dos aspectos mais intrigantes que Pande destaca é como a biologia representa um desafio único para a IA. Ao contrário de texto, que pode ser facilmente coletado da internet para treinar modelos como o GPT, dados biológicos precisam ser gerados laboriosamente através de experimentos caros e demorados. Isso cria uma dinâmica competitiva completamente diferente.
Cada empresa acaba construindo seu próprio conjunto de dados proprietário, criando silos de informação. Para startups brasileiras no setor, isso representa tanto um desafio quanto uma oportunidade. O desafio está no alto custo de entrada para gerar dados significativos. A oportunidade está em que, uma vez construído um dataset valioso, ele se torna uma barreira competitiva difícil de ser replicada.
Pande vê uma tendência emergente promissora: a criação de ‘atlas biológicos’ – essencialmente modelos fundacionais em biologia que poderiam desempenhar papel similar aos LLMs open-source no processamento de linguagem natural. Assim como modelos open-source competem efetivamente com alternativas corporativas em IA de texto, modelos fundacionais abertos em biologia poderiam democratizar o acesso a insights médicos avançados.
VZVC: um novo modelo de venture capital
A decisão de Pande de deixar a a16z para criar a VZVC com Zach Werner representa uma aposta radical em um modelo diferente de venture capital. Enquanto fundos tradicionais fazem dezenas de apostas por ano, a VZVC planeja fazer apenas cerca de cinco investimentos anuais. A firma opera apenas com os dois sócios fundadores, sem associates, usando agentes de IA para automatizar muitas das tarefas operacionais.
Esta abordagem ultra-concentrada reflete uma filosofia de investimento fundamentalmente diferente. Como Pande coloca, adicionar uma empresa em um fundo típico é como adicionar um amigo no Facebook – algo feito rapidamente e sem muito comprometimento profundo. Para a VZVC, cada novo investimento é mais como ‘decidir ter outro filho’ – uma decisão profunda que implica em um relacionamento de 5 a 10 anos ou mais.
O modelo se inspira em firmas como Valor (de Antonio Gracias, conhecido pelo investimento em SpaceX) e Thrive Capital, que também operam com portfólios mais concentrados. A estratégia não é competir pelos rounds mais disputados, mas sim ser convidado para participar porque os fundadores valorizam especificamente o que Pande e Werner podem agregar além do capital.
Áreas de foco e critérios de seleção
A VZVC está focada principalmente em duas áreas: IA para entrega de cuidados de saúde (healthcare delivery) e IA para ensaios clínicos. Na seleção de fundadores, Pande valoriza especialmente a confiança mútua e integridade – pessoas que cumprem o que prometem e pensam em termos de vitórias conjuntas, não apenas em vencer a competição.
Um insight crucial que Pande compartilha com seus fundadores, especialmente aqueles vindos do lado científico ou de produto, é a importância crítica do go-to-market. Ele os encoraja a aplicar toda sua criatividade e brilhantismo não apenas na tecnologia, mas também – e talvez principalmente – na estratégia de entrada no mercado, que frequentemente é mais desafiadora que o desenvolvimento tecnológico em si.
O que isso significa para o ecossistema brasileiro
A trajetória e as escolhas de Pande oferecem lições valiosas para o ecossistema brasileiro de inovação em saúde. Primeiro, a transformação da biologia de ciência de descoberta para engenharia abre oportunidades para startups brasileiras que souberem combinar expertise local em biotecnologia com capacidades em IA. O Brasil possui centros de excelência em pesquisa biomédica que poderiam se beneficiar dessa convergência.
Segundo, o modelo concentrado da VZVC sugere que, em mercados complexos como biotecnologia e IA, pode haver mais valor em fazer poucas apostas profundas do que em espalhar recursos em dezenas de empresas. Para fundos brasileiros que operam com capital mais limitado que seus pares americanos, essa abordagem pode ser especialmente relevante.
Terceiro, a ênfase de Pande em go-to-market ressoa fortemente no contexto brasileiro, onde muitas startups de base tecnológica falham não por limitações técnicas, mas por não conseguirem navegar a complexidade regulatória e comercial do setor de saúde. A mensagem é clara: excelência técnica é apenas o ponto de partida.
Conclusão
A jornada de Vijay Pande – de professor em Stanford a gestor de US$ 4 bilhões na a16z e agora fundador de uma firma boutique ultra-focada – ilustra como o setor de venture capital está se adaptando à era da IA. Sua visão de que a biologia está se tornando uma disciplina de engenharia, combinada com sua aposta em um modelo de investimento altamente concentrado, oferece um contraponto interessante à corrida frenética por deals em IA que domina o mercado atual.
Para o ecossistema brasileiro de inovação em saúde, as lições são claras: a convergência entre IA e biologia está criando oportunidades sem precedentes, mas capturá-las requer não apenas excelência técnica, mas também uma compreensão profunda de como levar essas inovações ao mercado. Enquanto isso, o debate sobre dados abertos versus proprietários em biologia continuará moldando quem terá acesso aos avanços prometidos pela IA na medicina – uma questão com implicações profundas para a equidade em saúde global.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria “"We’re not doing 30 bets a year": Vijay Pande on betting small after running $4 billion at a16z” publicada em TechCrunch, disponível em https://techcrunch.com/2026/08/29/were-not-doing-30-bets-a-year-vijay-pande-on-betting-small-after-running-4-billion-at-a16z/.



