Introdução
O setor jurídico, tradicionalmente conservador em relação a novas tecnologias, está passando por uma transformação significativa com a adoção de inteligência artificial. O caso do escritório de advocacia australiano Gilbert + Tobin oferece um modelo exemplar de como organizações em setores altamente regulados podem implementar IA de forma responsável e escalável. Com 87% de taxa de adoção entre usuários habilitados – mais que o dobro do típico para outras ferramentas – a firma demonstra que governança rigorosa e liderança comprometida são fundamentais para o sucesso da transformação digital em ambientes que lidam com informações sensíveis.
Liderança como catalisador da transformação
A jornada de IA do Gilbert + Tobin começou pelo topo. O CEO Sam Nickless não apenas aprovou a implementação do ChatGPT Enterprise, mas tornou-se um usuário ativo, compartilhando exemplos práticos de seu próprio trabalho com toda a organização. Sua mensagem central – ‘IA não é trapaça’ – foi fundamental para mudar a percepção cultural sobre o uso da tecnologia.
Essa abordagem contrasta significativamente com implementações tradicionais de tecnologia em escritórios de advocacia, onde frequentemente há resistência à mudança. Ao posicionar a IA como uma ferramenta que amplifica o julgamento profissional, em vez de substituí-lo, a liderança criou um ambiente onde a experimentação responsável foi encorajada.
O escritório optou por não estabelecer metas obrigatórias de uso, focando em demonstrar valor prático. Essa estratégia resultou em uma adoção orgânica impressionante, com parceiros seniores e equipes operacionais abraçando a tecnologia de forma entusiástica.
Governança robusta como fundamento
Para um escritório que gerencia informações confidenciais de clientes e está sujeito a rigorosos requisitos de compliance, a governança de IA não foi uma reflexão tardia, mas o alicerce de toda a implementação. O Gilbert + Tobin desenvolveu diretrizes claras sobre tarefas aprovadas, tipos de informações que podem ser inseridas no sistema e protocolos de revisão para outputs gerados por IA.
A mudança para um ambiente OpenAI com residência de dados na Austrália foi um marco crucial. Essa decisão não apenas atendeu aos requisitos regulatórios locais, mas também aumentou a confiança interna e dos clientes na segurança da plataforma. O escritório avaliou cuidadosamente aspectos como proteções contratuais, controles de acesso baseados em funções e requisitos de processamento de dados.
Esse nível de rigor na governança serve como modelo para outras organizações brasileiras em setores regulados, como bancos, seguradoras e escritórios de advocacia, que precisam equilibrar inovação com conformidade regulatória.
Casos de uso práticos transformando operações
A implementação começou estrategicamente pelas equipes operacionais, onde casos de uso práticos poderiam ser testados em ambiente controlado. Os resultados foram notáveis em várias áreas:
Recrutamento e RH: Uma tarefa de pesquisa e extração de dados que anteriormente consumia aproximadamente quatro horas foi reduzida para apenas 20 minutos. O processamento de referências de candidatos agora economiza cerca de 25 minutos por candidato, crucial para uma equipe que gerencia altos volumes de contratação.
Marketing e desenvolvimento de negócios: Com 400 a 500 propostas comerciais produzidas anualmente, o ChatGPT ajuda as equipes a sintetizar materiais anteriores e personalizar respostas para novas oportunidades. A ferramenta não apenas acelera a produção, mas melhora a qualidade e alinhamento com os padrões de escrita da firma.
Finanças e tecnologia: Equipes financeiras utilizam a IA para análise de planilhas e dados, enquanto times de tecnologia aplicam para documentação, scripts e materiais de treinamento. Um caso particularmente inovador é o ‘gêmeo digital’ do CEO – um GPT personalizado treinado com exemplos aprovados de escrita, prioridades e contexto empresarial do executivo, permitindo que equipes testem ideias antes de levá-las ao CEO real.
Da assistência à execução com Codex
O Gilbert + Tobin está expandindo suas capacidades de IA além da assistência individual para execução de workflows completos usando o Codex. Esta evolução representa uma mudança fundamental na forma como a IA é aplicada no ambiente corporativo.
Um exemplo impressionante foi a preparação automatizada de relatórios de auditoria cobrindo 300 entidades, economizando um dia inteiro de trabalho manual. O Codex também verificou e renomeou 1.100 arquivos para upload em outro sistema, substituindo dias de trabalho repetitivo.
Talvez o caso mais impactante seja o workflow desenvolvido para verificações de conflito, anti-lavagem de dinheiro (AML), pessoas politicamente expostas (PEP) e know-your-customer (KYC). Processos que anteriormente levavam de três a oito horas agora são concluídos em aproximadamente cinco minutos, com o Codex executando as etapas de pesquisa e processamento, produzindo um relatório para revisão e aprovação humana.
Na área de tecnologia, um membro da equipe DevOps usou o Codex para construir uma ‘torre de vigilância’ para o ambiente AWS da firma, consolidando sinais operacionais, apoiando diagnósticos e ações de remediação, e escalando questões que requerem atenção humana.
O que isso significa para o mercado brasileiro
O caso Gilbert + Tobin oferece lições valiosas para organizações brasileiras, especialmente em setores regulados. Primeiro, demonstra que a adoção bem-sucedida de IA não depende apenas de tecnologia, mas de uma combinação de liderança comprometida, governança robusta e foco em casos de uso práticos.
Para escritórios de advocacia brasileiros, bancos e outras instituições que lidam com informações sensíveis, o modelo mostra que é possível inovar mantendo os mais altos padrões de segurança e conformidade. A ênfase em manter humanos no loop – responsáveis pela revisão e aprovação final – alinha-se perfeitamente com requisitos regulatórios locais como a LGPD.
A abordagem de começar com equipes operacionais antes de expandir para áreas mais sensíveis oferece um caminho de menor risco para organizações cautelosas. Isso permite construir confiança interna, desenvolver melhores práticas e demonstrar valor antes de aplicações mais amplas.
Além disso, o foco em workflows completos através do Codex, em vez de apenas tarefas isoladas, aponta para o futuro da automação inteligente em escritórios. Isso é particularmente relevante para o mercado brasileiro, onde muitas organizações ainda dependem de processos manuais intensivos.
Conclusão
O sucesso do Gilbert + Tobin com IA oferece um blueprint valioso para organizações em setores regulados globalmente. A combinação de liderança visionária, governança rigorosa e foco em valor prático criou um modelo onde a IA amplifica capacidades humanas sem comprometer padrões profissionais ou segurança.
Para o mercado brasileiro, onde a transformação digital em setores tradicionais ainda está em estágios iniciais, este caso demonstra que é possível abraçar a inovação de forma responsável. A chave está em tratar a IA não como uma ameaça ou solução mágica, mas como uma ferramenta poderosa que, quando adequadamente governada e implementada, pode elevar significativamente a eficiência operacional mantendo a excelência profissional.
À medida que mais organizações brasileiras consideram implementações similares, o exemplo do Gilbert + Tobin serve como lembrete de que o sucesso com IA corporativa depende menos de tecnologia de ponta e mais de como as organizações a integram em sua cultura, processos e valores fundamentais.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria “How law firm Gilbert + Tobin governs and scales AI with OpenAI” publicada em OpenAI, disponível em https://openai.com/index/gilbert-tobin.



