Introdução
A Anthropic acaba de revelar dados surpreendentes sobre como as empresas realmente usam inteligência artificial no dia a dia. Ao lançar o Claude Cowork para dispositivos móveis e web, a empresa divulgou que impressionantes 90% dos usuários da ferramenta não a utilizam para programação – contrariando a narrativa dominante de que IA corporativa é sinônimo de assistentes de código. Os dados, coletados de 1,2 milhão de sessões anônimas em mais de 600 mil organizações, mostram que a verdadeira revolução da IA está acontecendo em tarefas aparentemente mundanas: relatórios, apresentações, checklists e toda a burocracia digital que consome horas dos profissionais brasileiros.
O que os dados revelam sobre o uso real de IA
A análise da Anthropic, baseada em dados coletados entre 11 e 31 de maio, revela um padrão claro: processos de negócios e operações representam 33,4% de todo o uso do Claude Cowork, tornando-se a categoria dominante. Em segundo lugar vem criação de conteúdo e copywriting com 16,4%. Juntas, essas duas categorias representam metade de todo o uso da ferramenta.
O desenvolvimento de software, que domina as manchetes sobre IA, representa apenas 8,7% do uso total. DevOps e infraestrutura somam outros 7%, enquanto pesquisa e inteligência ficam com 6,4%. Análise de dados e business intelligence representam 5,8%, processamento de documentos 4,1%, e operações de vendas 4%.
Esses números contam uma história diferente da que ouvimos no mercado. Enquanto gigantes como GitHub promovem o Copilot e a Microsoft investe pesado em ferramentas de programação assistida por IA, a realidade nas empresas é que a maioria dos profissionais está usando IA para o que a Anthropic chama de ‘trabalho ao redor do trabalho’ – aquelas tarefas que não aparecem na descrição do cargo mas consomem boa parte do dia.
Claude Cowork no mobile: como funciona na prática
A expansão para mobile e web introduz três capacidades fundamentais que mudam como a IA se integra ao fluxo de trabalho. Primeiro, as sessões agora sincronizam entre dispositivos – você pode começar uma tarefa no notebook do escritório, acompanhar o progresso pelo celular no metrô e acessar o resultado final de qualquer dispositivo.
A segunda mudança é mais significativa: o Claude Cowork agora pode executar tarefas em segundo plano, mesmo com todos os dispositivos desligados. Imagine agendar para segunda-feira às 6h da manhã a preparação de um briefing para clientes. O Claude processa threads de email, transcrições de reuniões e notícias recentes, monta o documento e deixa um rascunho de email pronto – tudo antes de você tomar o primeiro café.
A terceira capacidade é a notificação inteligente: quando o Claude encontra uma decisão que requer julgamento humano, ele envia uma notificação para o celular. Como a empresa enfatiza, ‘nada é enviado até você revisar e aprovar’. É uma abordagem que reconhece os limites da automação e mantém o controle humano sobre decisões críticas.
Vale notar que a versão desktop continua sendo a mais completa, com acesso a arquivos locais e navegador. Mas a versão web é estratégica para ambientes corporativos onde o departamento de TI controla rigidamente a instalação de software – uma realidade comum em grandes empresas brasileiras.
A estratégia de duas frentes da Anthropic
A Anthropic está executando uma estratégia clara de segmentação. De um lado, o Claude Code domina entre desenvolvedores com sua interface de terminal para construir, debugar e entregar código. Do outro, o Cowork mira no universo muito maior de profissionais que trabalham com informação – desde analistas financeiros montando relatórios até gerentes de RH criando processos de onboarding.
O interessante é que mesmo desenvolvedores, quando usam o Cowork, não o fazem para programar. Eles usam para as mesmas tarefas burocráticas que afligem todos os profissionais: atualizações de status, documentação, coordenação de equipes. É um lembrete de que até os programadores mais técnicos passam boa parte do tempo em tarefas não-técnicas.
Essa abordagem faz sentido comercialmente. O mercado de desenvolvedores, embora valioso e influente, é relativamente pequeno comparado ao universo total de trabalhadores do conhecimento. No Brasil, onde temos milhões de profissionais em escritórios lidando com planilhas, apresentações e relatórios, o potencial de mercado para ferramentas como o Cowork é ordens de magnitude maior.
Desafios de segurança e questões geopolíticas
A expansão do Cowork não vem sem controvérsias. Em julho, a empresa de segurança Armadin, liderada pelo fundador da Mandiant Kevin Mandia, publicou pesquisa detalhando o que descreveu como uma fuga completa do sandbox do Claude Cowork no Windows. O ataque envolvia técnicas sofisticadas de DLL sideloading para ganhar acesso ao serviço de máquina virtual do Cowork.
A Anthropic respondeu que a vulnerabilidade não se qualificava como problema de segurança porque explorá-la requer que o atacante já tenha execução de código local na máquina. Mas a Armadin levantou uma preocupação mais ampla: implementar máquinas virtuais locais em sistemas de usuários não-técnicos cria pontos cegos que produtos de segurança de endpoint têm dificuldade em monitorar.
Com a mudança para mobile e web, onde as tarefas rodam em servidores da Anthropic em vez de máquinas virtuais locais, esse vetor específico de ataque é eliminado. Mas surgem novas questões sobre manipulação de dados, especialmente para tarefas agendadas que processam emails, calendários e documentos sem supervisão em tempo real.
No front geopolítico, a situação também esquenta. A Alibaba anunciou que banirá funcionários de usar ferramentas da Anthropic a partir de 10 de julho, colocando o Claude Code em sua lista de software de alto risco. A decisão veio após a Anthropic acusar a gigante chinesa ao Senado americano do que chamou de ‘maior ataque de destilação conhecido’ contra seus modelos – essencialmente, tentar extrair as capacidades do Claude para criar uma cópia.
O que isso significa para o mercado brasileiro
Para executivos e gestores brasileiros, os dados da Anthropic trazem insights valiosos sobre onde a IA realmente agrega valor hoje. Não é substituindo programadores ou analistas em suas funções principais, mas automatizando o trabalho burocrático que drena produtividade de toda a organização.
Pense em quantas horas sua equipe gasta consolidando informações de múltiplas fontes em relatórios, criando apresentações que sintetizam dados dispersos, ou simplesmente formatando documentos para padrões corporativos. São exatamente essas tarefas – necessárias mas não estratégicas – que ferramentas como o Cowork estão capturando.
A chegada ao mobile é especialmente relevante no contexto brasileiro, onde executivos frequentemente trabalham em trânsito e precisam aprovar decisões rapidamente. A capacidade de delegar uma tarefa complexa pela manhã e revisar o resultado no celular durante o trajeto para uma reunião representa um ganho real de produtividade.
Também é importante notar que a Anthropic está investindo pesadamente em infraestrutura – a empresa assinou recentemente um contrato de US$ 19 bilhões por 20 anos para um data center no Kentucky com 401 megawatts de capacidade computacional. Esse tipo de comprometimento de capital só faz sentido se a empresa espera crescimento massivo na demanda corporativa, não apenas de desenvolvedores, mas dos milhões de profissionais que o Cowork agora alcança.
Conclusão
O lançamento do Claude Cowork para mobile e web, junto com os dados de uso revelados, marca um momento de inflexão no mercado de IA corporativa. A narrativa está mudando: o valor imediato da IA não está em substituir especialistas em suas funções principais, mas em liberá-los do trabalho burocrático que consome seu tempo.
Para o mercado brasileiro, isso representa uma oportunidade mais acessível e imediata de adoção de IA. Não é preciso ter uma equipe de desenvolvimento ou casos de uso sofisticados. Basta identificar onde sua organização perde tempo com ‘o trabalho ao redor do trabalho’ – e é exatamente aí que ferramentas como o Cowork podem fazer diferença.
A questão agora não é se a IA vai transformar o ambiente de trabalho, mas como as empresas vão navegar entre os benefícios de produtividade e os desafios de segurança e governança que essas ferramentas trazem. Com 90% dos usuários focados em tarefas não relacionadas à programação, está claro que a revolução da IA no trabalho será muito mais ampla – e talvez mais sutil – do que imaginávamos.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em VentureBeat, disponível em https://venturebeat.com/technology/anthropic-brings-claude-cowork-to-mobile-and-web-as-usage-data-shows-most-users-arent-coding.



