Introdução
O comportamento do consumidor digital está mudando drasticamente. Um novo estudo da Salesforce revela que o uso de inteligência artificial para buscar produtos antes de comprar online cresceu impressionantes 200% em apenas um ano. Mais revelador ainda: 86% dos líderes de comércio eletrônico acreditam que a IA está elevando o padrão das expectativas dos clientes, tornando sua implementação a principal prioridade estratégica para 2026. Esta transformação não é apenas uma tendência passageira – representa uma mudança fundamental na forma como consumidores descobrem, pesquisam e compram produtos online.
A explosão da IA no comportamento de compra
O relatório State of Commerce da Salesforce, que analisou dados de mais de 1,5 bilhão de compradores globais e entrevistou 3.450 profissionais de comércio, revela números que não podem ser ignorados. O uso de assistentes de IA como primeira etapa na jornada de compra cresceu 200% entre 2025 e 2026. Isso significa que cada vez mais consumidores estão começando suas buscas não em sites de e-commerce tradicionais, mas em ferramentas de IA conversacional.
Para o mercado brasileiro, onde o e-commerce já movimenta centenas de bilhões de reais anualmente, essa mudança tem implicações profundas. Grandes varejistas como Magazine Luiza, Mercado Livre e Americanas precisarão repensar completamente suas estratégias de descoberta de produtos. Não basta mais otimizar para o Google – agora é preciso garantir que os produtos sejam encontrados e recomendados corretamente por agentes de IA.
Quase 80% das organizações relatam aumento no tráfego vindo de buscas baseadas em modelos de linguagem (LLMs). Isso indica que ferramentas como ChatGPT, Claude e Gemini estão se tornando pontos de partida para decisões de compra, funcionando como consultores virtuais que ajudam consumidores a encontrar exatamente o que precisam.
Os desafios da implementação em escala
Apesar do entusiasmo, a implementação efetiva de IA no comércio eletrônico enfrenta obstáculos significativos. O estudo revela que apenas 27% das empresas conseguiram unificar completamente seus dados de clientes entre vendas, atendimento, marketing e comércio. Essa fragmentação de dados é o principal impedimento para escalar soluções de IA de forma eficaz.
Os cinco principais casos de uso para IA agêntica no comércio incluem: resolução autônoma de atendimento ao cliente, concierges de compras com IA, reabastecimento autônomo, tomada de decisões autônoma sobre fraudes e otimização autônoma de merchandising. No entanto, mais de 60% dos líderes de comércio citam integração de dados deficiente, falta de estratégia definida para IA e baixa qualidade de dados como barreiras principais.
Para empresas brasileiras, esses desafios são ainda mais complexos. Muitas ainda operam com sistemas legados, múltiplas plataformas desconectadas e dados espalhados em silos departamentais. A jornada para implementar IA efetivamente começa, portanto, com um trabalho fundamental de organização e integração de dados.
A nova realidade do comércio autônomo
O conceito de comércio autônomo está rapidamente deixando de ser ficção científica para se tornar realidade operacional. Trinta e cinco por cento dos usuários de IA agêntica já estão focados em expansão, tendo superado a fase de provas de conceito. Isso significa que estamos vendo implementações reais em produção, não apenas experimentos.
As empresas B2B estão particularmente avançadas nessa jornada. Mais da metade das tarefas de compra B2B – desde navegação e configuração de produtos até gestão de pedidos e recompras – já são realizadas principalmente através de agentes de IA. Os benefícios reportados incluem crescimento de receita, aumento de produtividade dos funcionários e maior eficiência organizacional.
No contexto brasileiro, onde relacionamentos B2B muitas vezes dependem de vendedores e representantes comerciais, essa transformação representa uma mudança cultural significativa. Empresas precisarão requalificar suas equipes de vendas para trabalhar em conjunto com agentes de IA, focando em atividades de maior valor agregado enquanto a IA cuida de tarefas rotineiras.
Preparando-se para o futuro do e-commerce com IA
Para se preparar para essa nova realidade, as empresas estão tomando medidas concretas. As três principais ações para melhorar a visibilidade em buscas de IA incluem: melhorar a qualidade do conteúdo de produtos, criar ou otimizar conteúdo para consultas conversacionais e baseadas em perguntas, e enviar feeds de dados para plataformas de busca com IA.
É crucial entender que não se trata apenas de adicionar chatbots ao site. A transformação é muito mais profunda. Empresas precisam repensar toda a arquitetura de informação de seus produtos, garantindo que descrições sejam ricas, detalhadas e estruturadas de forma que agentes de IA possam compreender e recomendar produtos adequadamente.
Surpreendentemente, apenas 32% dos líderes de comércio dizem que suas organizações definiram completamente métricas de sucesso e KPIs para IA. Isso sugere que muitas empresas estão implementando IA sem uma estratégia clara de medição de resultados, o que pode levar a investimentos mal direcionados.
O que isso significa para o mercado brasileiro
Para o ecossistema de e-commerce brasileiro, essas tendências representam tanto oportunidades quanto ameaças. Empresas que se moverem rapidamente para integrar IA em suas operações poderão capturar uma vantagem competitiva significativa. Por outro lado, aquelas que demorarem podem ver seu tráfego e vendas diminuírem à medida que consumidores migram para plataformas mais inteligentes.
Pequenos e médios varejistas enfrentam um desafio particular. Enquanto gigantes do varejo podem investir milhões em infraestrutura de IA, empresas menores precisarão ser criativas, aproveitando soluções de plataforma e ferramentas de IA como serviço para permanecerem competitivas. Marketplaces como Mercado Livre e plataformas de e-commerce como VTEX e Nuvemshop terão papel crucial em democratizar o acesso a essas tecnologias.
A questão da privacidade e regulamentação também é crítica. Com a LGPD em vigor no Brasil, empresas precisam garantir que suas implementações de IA respeitem os direitos dos consumidores sobre seus dados pessoais. Isso adiciona uma camada extra de complexidade, mas também pode ser uma vantagem competitiva para empresas que conseguirem combinar personalização avançada com respeito à privacidade.
Conclusão
O crescimento de 200% nas buscas de compras com IA em apenas um ano não é uma anomalia estatística – é um sinal claro de uma mudança fundamental no comportamento do consumidor. Para líderes de e-commerce, a mensagem é clara: a IA não é mais opcional, é essencial. As empresas que conseguirem unificar seus dados, implementar agentes de IA eficazes e criar experiências de compra verdadeiramente inteligentes serão as vencedoras desta nova era do comércio digital.
O futuro do e-commerce é autônomo, personalizado e impulsionado por IA. Para o mercado brasileiro, conhecido por sua rápida adoção de tecnologias digitais, esta pode ser a oportunidade de liderar globalmente em inovação no varejo. Mas isso exigirá investimentos significativos não apenas em tecnologia, mas em pessoas, processos e, fundamentalmente, em uma nova mentalidade sobre como servir clientes na era da inteligência artificial.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em ZDNet, disponível em https://www.zdnet.com/article/ai-shopping-searches-surging-commerce-leaders-top-priority/.



