Base44 lança modelo próprio de IA e sinaliza nova fase para startups do setor

    Tempo de leitura: 5 minutesBase44, plataforma de programação por linguagem natural da Wix, lança modelo de IA próprio para reduzir dependência de sistemas externos e aumentar competitividade no mercado

    30 de junho de 2026

    negocios-techBase44defensibilidade tecnológicaInteligência ArtificialModelos de Linguagemprogramação visualStartups de IAWix
    Base44 lança modelo próprio de IA e sinaliza nova fase para startups do setor
    Tempo de leitura: 5 minutes

    Introdução

    A Base44, plataforma de programação por linguagem natural adquirida pela Wix por US$ 80 milhões há apenas um ano, acaba de dar um passo estratégico significativo: o lançamento de seu próprio modelo de inteligência artificial. A empresa israelense, que permite aos usuários criar aplicações usando comandos em linguagem natural, desenvolveu o Base1, um modelo de linguagem treinado com dezenas de milhões de interações reais de usuários em sua plataforma. Esta movimentação reflete uma tendência crescente no mercado de IA, onde empresas buscam reduzir sua dependência de modelos de terceiros como GPT, Claude e outros sistemas frontier.

    A busca por autonomia tecnológica

    O movimento da Base44 não acontece no vácuo. Nos círculos especializados em inteligência artificial, intensifica-se o debate sobre se os modelos frontier – aqueles desenvolvidos por gigantes como OpenAI, Anthropic e Google – são realmente a melhor escolha para todos os casos de uso. Para Maor Shlomo, fundador da Base44, a decisão de desenvolver um modelo próprio vai além da simples independência tecnológica. Segundo ele, treinar e possuir o modelo como parte integral de toda a stack tecnológica permite otimizações muito mais significativas em latência, custo e eficiência operacional.

    Esta estratégia contrasta diretamente com a abordagem de concorrentes como a startup sueca Lovable, que alcançou o status de unicórnio em sua rodada Série A no verão passado e continua dependendo de modelos externos de linguagem. A Lovable, que reportou receita anualizada de US$ 500 milhões recentemente, processa bilhões de tokens por minuto usando infraestrutura de terceiros – uma escolha que pode parecer prática no curto prazo, mas que levanta questões sobre defensibilidade e margens de lucro no longo prazo.

    Os três pilares da defensibilidade em IA

    Jonathan Userovici, sócio da firma de venture capital Headline, que tem em seu portfólio empresas como Mistral AI, identifica três ingredientes fundamentais para a defensibilidade de startups de IA: dados proprietários, canais de distribuição estabelecidos e uma stack tecnológica robusta. A Base44 parece estar apostando em todos os três elementos simultaneamente. Com dezenas de milhões de interações de usuários gerando dados únicos e específicos para programação em linguagem natural, a empresa constrói um moat competitivo que seria difícil de replicar.

    O conceito de defensibilidade tornou-se crucial no atual cenário de IA. Empresas que simplesmente constroem uma camada de interface sobre modelos de terceiros correm o risco de serem facilmente substituídas ou desintermediadas. Por outro lado, aquelas que desenvolvem capacidades proprietárias – seja através de dados únicos, modelos especializados ou integrações profundas – criam barreiras de entrada mais substanciais para potenciais competidores.

    A especialização como vantagem competitiva

    Um aspecto interessante da estratégia da Base44 é sua aposta na especialização. Enquanto os grandes laboratórios de IA continuam desenvolvendo modelos cada vez mais gerais e poderosos, a Base44 foca especificamente no nicho de criação de aplicações através de linguagem natural. Shlomo acredita que, embora os modelos frontier continuem progredindo, eles permanecerão necessariamente generalistas em suas capacidades. Esta generalização, argumenta ele, cria oportunidades para modelos especializados que podem superar os gigantes em tarefas específicas.

    A competição, no entanto, não vem apenas de outras startups de programação visual. Grandes players estão entrando agressivamente neste espaço. A Cursor, por exemplo, agora pertence à SpaceX após uma aquisição junto com a xAI de Elon Musk. O Claude Code, da Anthropic, evoluiu para se tornar um player significativo no segmento de programação assistida por IA. Estes movimentos dão aos laboratórios de IA acesso direto a dados valiosos e loops de feedback que podem ser usados para melhorar ainda mais seus modelos para criação de aplicações.

    O fator custo na equação

    Um elemento crucial que está impulsionando mudanças no setor é o custo de inferência – o preço computacional de executar consultas em modelos de IA. Userovici observa que a pressão sobre os custos levou a uma mudança significativa nas demandas dos clientes empresariais. Muitas empresas não conseguem identificar um retorno sobre investimento claro ao usar os modelos mais avançados para todos os casos de uso. Como resultado, está surgindo toda uma infraestrutura dedicada à orquestração e otimização, selecionando automaticamente os modelos mais apropriados para cada tarefa específica, mantendo o desempenho enquanto controla os custos.

    Para a Base44, o desenvolvimento do Base1 promete benefícios de custo tanto para a empresa quanto para seus usuários. A propriedade do modelo dá à empresa controle direto sobre os gastos com computação e inferência, o que deve resultar em um perfil de margem estruturalmente mais forte ao longo do tempo. Esta melhoria nas margens seria especialmente bem-vinda para a Wix, empresa-mãe da Base44, que recentemente anunciou demissões de 20% de sua força de trabalho. Em contraste marcante, a Base44 tem expandido sua equipe desde a aquisição e anunciou ter ultrapassado US$ 100 milhões em receita recorrente anual.

    Implicações para o mercado brasileiro

    Para o ecossistema brasileiro de tecnologia, o movimento da Base44 oferece lições valiosas. A dependência excessiva de modelos proprietários de empresas como OpenAI e Anthropic representa um risco estratégico que empresas locais precisam considerar seriamente. Startups brasileiras que estão construindo soluções baseadas em IA precisam avaliar se sua proposta de valor vai além de simplesmente ser uma interface para modelos de terceiros.

    Empresas como a Semantix, uma das principais players de IA no Brasil, já começaram a explorar modelos próprios e adaptações locais. O desenvolvimento de capacidades proprietárias não apenas reduz custos operacionais no longo prazo, mas também permite customizações específicas para o mercado local – algo particularmente relevante considerando as nuances do português brasileiro e as necessidades específicas do mercado nacional.

    Além disso, a questão da soberania de dados torna-se cada vez mais relevante. Empresas que processam informações sensíveis de clientes brasileiros podem encontrar vantagens competitivas e de compliance ao manter maior controle sobre sua infraestrutura de IA, em vez de depender inteiramente de provedores internacionais.

    O futuro da competição em IA

    O caso da Base44 ilustra uma tendência que provavelmente se intensificará nos próximos anos. À medida que o mercado de IA amadurece, a diferenciação virá cada vez menos do acesso a modelos de ponta e cada vez mais da capacidade de criar soluções especializadas e otimizadas para casos de uso específicos. Empresas que conseguirem combinar dados proprietários de qualidade, expertise em domínios específicos e capacidades técnicas próprias estarão melhor posicionadas para competir.

    É importante notar que nem todas as empresas seguirão este caminho. Userovici cita o exemplo da Harvey, uma startup de tecnologia jurídica que abandonou planos de treinar seu próprio modelo. A decisão de desenvolver modelos proprietários deve ser baseada em uma análise cuidadosa de custos e benefícios, considerando fatores como volume de dados disponíveis, recursos técnicos e financeiros, e a especificidade do caso de uso.

    Conclusão

    O lançamento do Base1 pela Base44 marca um momento importante na evolução do mercado de IA. Representa uma aposta de que o futuro pertence não apenas aos grandes modelos generalistas, mas também a soluções especializadas que podem oferecer melhor desempenho, menor custo e maior controle para casos de uso específicos. Para o mercado brasileiro, este movimento serve como um lembrete da importância de desenvolver capacidades próprias em IA, reduzindo a dependência de tecnologias estrangeiras e criando soluções verdadeiramente adaptadas às necessidades locais. À medida que mais empresas seguem o exemplo da Base44, podemos esperar um ecossistema de IA mais diversificado, competitivo e inovador, onde a especialização e a propriedade tecnológica se tornam diferenciais competitivos fundamentais.


    Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em TechCrunch, disponível em https://techcrunch.com/2026/06/29/vibe-coding-platform-base44-launches-own-model-as-ai-startups-seek-defensibility/.

    Gostou? Receba mais conteúdos como este

    Insights semanais sobre tecnologia e inovação.

    Conteúdos relacionados