Introdução
O mercado de agentes de IA está vivendo um momento de explosão sem precedentes. No AWS Marketplace, uma das maiores plataformas de aplicações empresariais do mundo, as buscas por “agentes de IA” saltaram do 64º lugar para o 3º em apenas um ano. Com mais de 4.000 ofertas de agentes disponíveis – um crescimento de 300% em relação ao ano anterior – a plataforma está usando a própria tecnologia que vende para automatizar e otimizar todo o processo de descoberta, aquisição e implementação de software. É a aplicação prática do conceito “comer a própria comida” levado ao extremo: usar agentes de IA para vender agentes de IA.
A explosão do mercado de agentes autônomos
O mercado global de software de aquisição agêntica está avaliado em US$ 1,2 bilhão em 2025, com projeção de crescimento anual composto de 24%, podendo alcançar quase US$ 9 bilhões até 2034. Esses números refletem uma mudança fundamental na forma como empresas adquirem e implementam software. Os agentes de IA não são mais apenas assistentes virtuais simples – são sistemas autônomos capazes de planejar, executar e adaptar tarefas complexas de múltiplas etapas sem intervenção humana constante.
No AWS Marketplace, essa transformação é visível nos números. Matt Yanchyshyn, vice-presidente do AWS Marketplace & Partner Services, revelou que a plataforma passou de cerca de 1.000 ofertas de agentes há um ano para mais de 4.000 atualmente, dentro de um catálogo total de quase 40.000 aplicações. Mais impressionante ainda é a mudança no comportamento de busca: “agentes de IA” agora é o terceiro termo mais procurado na plataforma.
Como os agentes estão transformando marketplaces empresariais
A verdadeira revolução está acontecendo nos bastidores. Os marketplaces de aplicações empresariais estão usando agentes de IA para automatizar todo o ciclo de vida da aquisição de software, desde a descoberta inicial até a implementação completa. Isso vai muito além do modelo tradicional de “clique e instale” das lojas de aplicativos.
Os agentes agora lidam com tarefas complexas como qualificação de fornecedores, comparação detalhada de funcionalidades, negociação de preços, gestão de licenças, auditoria de conformidade e até mesmo partes do processo de contratação. É uma mudança radical que está reduzindo significativamente a sobrecarga administrativa dos departamentos de TI.
Bret Greenstein, chief AI officer da West Monroe Partners, observa que os marketplaces com agentes estão “reduzindo uma quantidade surpreendente de sobrecarga de TI ao ajudar com descoberta de aplicações, comparação de fornecedores, licenciamento, gestão de direitos, auditoria, renovações e até mesmo partes da contratação e aquisição”.
O papel da due diligence automatizada
Um dos aspectos mais transformadores dessa evolução é a automação do processo de due diligence. Tradicionalmente, avaliar um software empresarial exige semanas de análise, reuniões com fornecedores, verificações de segurança e compatibilidade. Os agentes de IA estão comprimindo esse processo para horas ou até minutos.
No AWS Marketplace, os agentes não apenas ajudam na descoberta e precificação, mas também no sucesso da implementação. “Estamos apoiando não apenas a descoberta, mas a implantação”, explica Yanchyshyn. “A due diligence é uma área onde estamos vendo muita adoção, além do suporte tradicional de precificação e transação”.
Essa capacidade é especialmente valiosa para empresas brasileiras que precisam navegar por requisitos regulatórios complexos, como a LGPD, além de garantir compatibilidade com sistemas legados e infraestrutura local.
Desafios e limitações da automação
Apesar do entusiasmo, especialistas alertam para limitações importantes. Shashi Bellamkonda, diretor principal de pesquisa do Info-Tech Research Group, destaca que os agentes de IA “podem examinar menos de 70% das soluções disponíveis”. Isso não é uma falha específica do AWS, mas uma limitação inerente aos modelos atuais de IA.
Para empresas brasileiras, isso significa que a automação deve ser vista como uma ferramenta poderosa de apoio, não como substituto completo para a análise humana. Bellamkonda recomenda “mais reprompting e adição de detalhes” para obter melhores resultados, além de sempre questionar e revisar as recomendações dos agentes.
A governança também se torna mais crítica. Quando software pode ser descoberto, avaliado e provisionado mais rapidamente, as empresas precisam de políticas mais claras sobre fornecedores aprovados, segurança, acesso a dados, arquitetura e autoridade dos agentes.
O futuro híbrido: agentes e humanos trabalhando juntos
Contrariando previsões apocalípticas sobre o fim dos empregos em vendas e TI, a realidade emergente é mais nuançada. Os agentes estão assumindo tarefas administrativas e repetitivas, mas negociações complexas e decisões estratégicas ainda exigem expertise humana.
“Negócios de nível médio e baixo estão sendo cada vez mais automatizados”, observa Yanchyshyn. “No entanto, negócios mais sofisticados com configurações personalizadas e preços customizados não vão desaparecer. Para grandes negócios e preços privados de três anos, você precisa de uma equipe de vendas sofisticada e experiente de um lado e uma equipe de aquisições do outro”.
Empresas como a CharmHealth já estão implementando essa visão híbrida. Seu assistente de IA, Ria, ajuda compradores potenciais a avaliar produtos e agiliza o processo de integração, mas trabalha em conjunto com representantes de vendas humanos. “Em vez de esperar um representante de vendas agendar uma demonstração, os compradores podem obter as informações que precisam e explorar o software em seu próprio tempo”, explica Pramila Srinivasan, CEO da CharmHealth.
O que isso significa para o mercado brasileiro
Para empresas brasileiras, essa transformação representa tanto oportunidades quanto desafios. Do lado positivo, a automação via agentes pode democratizar o acesso a software empresarial sofisticado, reduzindo barreiras de entrada para pequenas e médias empresas que não têm grandes equipes de TI.
A capacidade de realizar due diligence automatizada é especialmente valiosa em um mercado onde a escassez de profissionais especializados é uma realidade constante. Agentes podem ajudar empresas a avaliar rapidamente se uma solução atende aos requisitos de conformidade local, integra-se com sistemas existentes e oferece suporte adequado em português.
Por outro lado, a dependência crescente de agentes de IA levanta questões sobre soberania digital e proteção de dados. Empresas precisarão desenvolver políticas claras sobre quais informações podem ser compartilhadas com agentes durante processos de avaliação e aquisição.
Conclusão
O uso de agentes de IA para vender agentes de IA no AWS Marketplace não é apenas uma curiosidade tecnológica – é um vislumbre do futuro da aquisição e gestão de software empresarial. Com o mercado projetado para crescer de US$ 1,2 bilhão para quase US$ 9 bilhões em menos de uma década, está claro que a automação agêntica veio para ficar.
Para profissionais e empresas brasileiras, o momento é de preparação e adaptação. Aqueles que souberem combinar as capacidades dos agentes de IA com expertise humana estarão melhor posicionados para aproveitar as oportunidades dessa nova era. A chave está em entender que os agentes não são substitutos para o julgamento humano, mas amplificadores poderosos de nossa capacidade de tomar decisões informadas e eficientes.
À medida que mais empresas adotam essa tecnologia, podemos esperar uma aceleração ainda maior na velocidade de inovação e implementação de software. O futuro dos marketplaces empresariais será cada vez mais inteligente, autônomo e eficiente – mas ainda profundamente dependente da sabedoria e criatividade humanas para definir objetivos e estratégias.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria “How AWS Marketplace is using AI agents to meet the rising demand for AI agents” publicada em ZDNet, disponível em https://www.zdnet.com/article/application-marketplaces-aws-ai-agents/.



