Introdução
O mercado corporativo está prestes a enfrentar sua próxima grande crise orçamentária, e ela será medida em tokens. A 1Password, empresa conhecida mundialmente por seu gerenciador de senhas, acaba de lançar uma solução de gestão de custos e consumo de IA que promete dar visibilidade em tempo real sobre os gastos com serviços de inteligência artificial como Anthropic, Cursor e OpenAI. O movimento marca uma expansão estratégica significativa para a empresa canadense, que nos últimos três anos tem se reposicionado agressivamente como uma plataforma mais ampla de segurança de identidade e governança de SaaS para o mercado corporativo.
A nova funcionalidade, chamada AI Spend and Consumption Management, está integrada à plataforma SaaS Manager da empresa e surge em um momento crítico: organizações ao redor do mundo estão descobrindo que os modelos de precificação baseados em consumo de tokens podem rapidamente fugir do controle, criando pressões orçamentárias sem precedentes para equipes de TI e finanças.
O desafio estrutural da precificação por tokens
Greg Henry, CFO da 1Password, traça um paralelo revelador com um problema que as empresas já enfrentaram antes. “A precificação baseada em consumo não é nova”, explica ele. “Vimos isso acontecer com a infraestrutura em nuvem, e levou anos para construir as ferramentas e disciplinas necessárias para gerenciá-la. A IA é a próxima versão dessa mudança.”
A comparação é especialmente pertinente para o contexto brasileiro, onde muitas empresas ainda lutam para controlar seus gastos com cloud computing. Quando Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud popularizaram a precificação por consumo na década de 2010, as organizações inicialmente careciam de ferramentas para monitorar e otimizar suas contas. Essa lacuna criou todo um ecossistema de FinOps – empresas como CloudHealth, Spot.io e Apptio construíram negócios bilionários ajudando organizações a entender seus gastos com nuvem.
Com IA, o problema é ainda mais complexo. Enquanto o orçamento tradicional de software opera com modelos per-seat anuais previsíveis, cada chamada de API para Claude, GPT-4 ou um assistente de codificação baseado em Cursor consome tokens – e o custo varia por modelo, por tipo de operação (entrada versus saída) e pela complexidade da tarefa. Uma única equipe de engenharia executando workflows agênticos pode consumir um orçamento pré-pago de tokens em questão de semanas.
Como funciona a solução da 1Password
O sistema se conecta diretamente às APIs administrativas dos fornecedores para extrair dados de consumo em nível de token diariamente. Esses dados são normalizados entre provedores em um dashboard unificado, permitindo que as organizações definam limites de gastos por fornecedor, configurem alertas baseados em limiares via Slack e email, e analisem o uso por equipe, usuário, fornecedor e modelo.
A plataforma oferece quatro funções principais. Primeiro, agrega uso de tokens e gastos entre Anthropic, Cursor e OpenAI em uma visão única e normalizada – eliminando a necessidade de alternar entre três dashboards diferentes com formatos de relatório distintos. Segundo, permite controles orçamentários: organizações podem definir limites de gastos por fornecedor, configurar limiares percentuais e receber alertas automatizados quando saldos pré-pagos se aproximam do esgotamento.
Terceiro, desagrega o consumo por equipe, usuário, fornecedor e modelo, permitindo que finanças e TI entendam não apenas quanto está sendo gasto, mas onde e por quem. Quarto, situa os gastos com IA dentro do portfólio mais amplo de SaaS, ajudando organizações a ver como os custos de tokens se relacionam com seu investimento total em software.
O problema dos agentes autônomos e loops infinitos
Um aspecto crítico da solução é sua capacidade de capturar consumo independentemente de ter sido gerado por humano ou agente de IA. “O consumo de tokens é capturado no nível da API, independentemente de um humano ou agente estar gerando”, explica Henry. “As organizações obtêm o quadro completo de consumo, incluindo os picos que loops de agentes podem criar, que podem ser alguns dos usos mais difíceis de detectar antes de se tornarem um problema.”
Essa visibilidade em nível de agente é fundamental porque sistemas de IA autônomos podem gerar custos descontrolados de formas que usuários humanos tipicamente não conseguem. Um assistente de codificação agêntico preso em um loop de tentativas, por exemplo, pode consumir milhares de dólares em tokens em minutos – sem nenhum humano para perceber. Por enquanto, o produto alerta mas não impõe limites automaticamente, embora Henry tenha indicado que a empresa está “avaliando ativamente” a aplicação automática de limites.
A escolha estratégica dos parceiros de lançamento
A decisão de começar com Anthropic, Cursor e OpenAI – em vez de lançar com um leque mais amplo – reflete onde a adoção corporativa de IA e a pressão orçamentária estão mais concentradas atualmente. A inclusão do Cursor junto aos dois principais provedores de modelos fundacionais é particularmente reveladora. O Cursor, um editor de código alimentado por IA que ganhou tração rapidamente entre desenvolvedores, representa uma categoria de ferramenta de IA onde o consumo é especialmente difícil de prever.
Diferentemente de uma interface de chatbot onde um usuário conscientemente digita um prompt, o Cursor integra sugestões de IA diretamente no fluxo de trabalho de desenvolvimento, gerando consumo de tokens continuamente enquanto desenvolvedores escrevem código. Esse padrão de consumo ambiente e sempre ativo o torna especialmente propenso a estouros orçamentários – um problema que ressoa fortemente com equipes de desenvolvimento brasileiras que estão adotando essas ferramentas em ritmo acelerado.
Quem deve gerenciar os custos de IA nas empresas?
Henry aborda uma questão organizacional crítica: quem dentro de uma empresa deveria realmente ser responsável por esse problema. A resposta honesta, ele admite, é que atualmente ninguém tem essa responsabilidade clara. “Quando os gastos estão fragmentados entre dashboards de fornecedores e as equipes financeiras estão reconciliando mensalmente, você está sempre atrasado”, observa. “Os gastos com IA não podem ser tratados como um problema apenas de finanças ou apenas de TI.”
As diferenças de preço entre modelos tornaram-se significativas o suficiente para que a escolha de qual modelo de IA uma equipe usa seja agora uma decisão financeira importante, puxando CFOs para conversas com líderes de TI, produto e engenharia “de maneiras que nunca precisaram antes”. Essa dinâmica é especialmente relevante no contexto brasileiro, onde muitas empresas ainda estão estabelecendo governança básica para ferramentas de IA.
O cenário competitivo e a consolidação do mercado
A 1Password não está sozinha nessa corrida. Zylo, outra plataforma de gestão de SaaS reconhecida pelo Gartner como líder no espaço, publicou dados mostrando que os gastos com aplicações nativas de IA aumentaram 393% ano a ano em organizações com mais de 10.000 funcionários. Os dados da Zylo também revelaram que o ChatGPT tornou-se a aplicação mais reembolsada em ambientes corporativos, destacando como as ferramentas de IA estão entrando nas organizações através de cartões de crédito de funcionários e relatórios de despesas – fora dos fluxos formais de aquisição e governança.
O mercado mais amplo de gestão de SaaS também está se consolidando rapidamente. Em maio, a Deel adquiriu a Sastrify, uma fornecedora alemã de gestão de SaaS, sinalizando que as capacidades de gestão de SaaS estão sendo cada vez mais absorvidas por plataformas empresariais adjacentes em vez de permanecerem como produtos independentes.
A evolução da 1Password: de gerenciador de senhas a plataforma empresarial
A trajetória da 1Password tem sido notável. A empresa levantou uma rodada Série C de US$ 620 milhões em janeiro de 2022 liderada pela ICONIQ Growth, alcançando uma avaliação de US$ 6,8 bilhões – na época, a maior rodada de financiamento já levantada por uma empresa canadense. A rodada também atraiu investidores celebridades incluindo Ryan Reynolds, Scarlett Johansson e Robert Downey Jr.
No início de 2025, a 1Password havia ultrapassado US$ 250 milhões em receita recorrente anual, com vendas B2B representando quase três quartos da receita total. Em maio de 2024, a empresa lançou o Extended Access Management, uma plataforma projetada para proteger logins em aplicações e dispositivos gerenciados e não gerenciados. No mesmo ano, adquiriu a Kolide para confiança de dispositivos e, no início de 2025, a Trelica para descoberta de SaaS.
O que isso significa para o mercado brasileiro
Para empresas brasileiras que estão acelerando a adoção de IA, o lançamento da 1Password representa tanto um alerta quanto uma oportunidade. O alerta é claro: sem visibilidade e controle adequados, os custos com IA podem rapidamente sair de controle, especialmente quando equipes de desenvolvimento começam a usar ferramentas como Cursor ou quando departamentos implementam agentes autônomos para automação de processos.
A oportunidade está em aprender com os erros do passado. Muitas organizações brasileiras ainda pagam caro por não terem implementado disciplinas de FinOps para cloud computing há uma década. Com IA, há a chance de construir essa visibilidade e governança desde o início, evitando anos de gastos desnecessários.
Steve May, diretor de TI da ServiceTrade e cliente da 1Password, oferece uma perspectiva prática: “Ferramentas de previsão para consumo e gastos com IA eram uma das nossas maiores lacunas no planejamento porque não tínhamos uma maneira confiável de rastreá-los.” Ele acrescenta que a visibilidade “preveniu excessos que teriam custado muito mais para corrigir depois do fato.”
Alto consumo de tokens nem sempre significa desperdício
Talvez o insight mais valioso de Henry seja sua perspectiva sobre o que as organizações devem realmente fazer com os dados de consumo uma vez que os tenham. Ele rejeita firmemente a suposição de que alto consumo de tokens automaticamente sinaliza desperdício.
“Uma equipe consumindo muitos tokens pode estar construindo algo genuinamente valioso”, argumenta. “Um projeto de menor uso pode não estar movendo o negócio adiante de forma alguma. O que importa é se esse consumo está produzindo valor de negócio suficiente para justificar o gasto.”
Essa abordagem posiciona a gestão de custos de IA não apenas como uma ferramenta de corte de custos, mas como um sistema de suporte à decisão para alocação de investimentos em IA. Se um CFO pode ver que o uso intenso de Claude por uma equipe de engenharia está alimentando um recurso de produto que gera receita, enquanto os gastos com OpenAI de outra equipe estão financiando automação interna de baixo valor, a organização pode realocar o orçamento adequadamente em vez de impor cortes generalizados.
Conclusão
O lançamento da 1Password no mercado de gestão de custos de IA marca um momento importante na maturação do ecossistema corporativo de inteligência artificial. A próxima crise orçamentária empresarial já está aqui – e ela é precificada por token. As organizações que construírem visibilidade e disciplina de gestão em torno do consumo agora estarão em posição muito melhor quando essa mudança se espalhar pelo resto de seu portfólio de software.
Como Henry adverte, as empresas que falharem em agir agora podem acabar onde muitas terminaram com a nuvem: percebendo tarde demais o quanto estavam pagando a mais, e por quanto tempo. Para o mercado brasileiro, ainda em estágios iniciais de adoção corporativa de IA, essa é uma lição que vale a pena aprender antes que as contas cheguem.
Fonte original: Este artigo foi adaptado e traduzido a partir da matéria publicada em VentureBeat, disponível em https://venturebeat.com/security/1password-moves-into-ai-cost-management-betting-that-token-spend-is-the-next-enterprise-budget-crisis.



